Os guerreiros estão dormindo
Domingo seis de dezembro de 2009, eu voltava da IV conferência da cidade, que acontecera entre os dias cinco e seis, no Centro de Cultura Che Guevara. Ao caminhar pela praça José de Alencar me deparei com várias cenas dignas de um povo que não sabe respeitar a sua cidade, a sua cultura e a si próprio. A praça que fora reformado pela administração municipal estava repleta de vendedores ambulantes, cada qual o mais surjão.
Não sou contra os vendedores de rua, pelo contrário, defendo um espaço seguro para que eles trabalhem; mas como cidadão exijo que tenham responsabilidade social com a cidade e com os demais.
Outro foto triste foi presenciar transeunte a caminhar sobre a grama dos jardins. Mas de todos eles o que mais me chamou a atenção foi o descaso com o monumento que simboliza a presença augusta de um dos maiores escritores do Brasil, José Martiniano de Alencar. Ao chegar no local onde se encontra o marco; obriguei-me a parar, sua base estava tomada por mendigos, bêbados e prostitutas. Algumas delas faziam sinal com o dedo indicador; chamando os transeuntes para perto de si, certamente para negociar um programa.
Bem ao lado das prostitutas e dos bêbados estavam também cinco soldados da polícia militar, o mais alto deles, chamava-se Luan Machado, o nome estava escrito na lapela de identificação, além dos soldados havia uma cabine da Guarda Municipal de Fortaleza. Diante de tudo que via continuei parado fazendo de conta que estava lendo a inscrição gravada no píncaro do monumento, mas na verdade eu estava calculando mentalmente a distância entre ele e a cabine da prefeitura que fiquisei em dez metros.
Em seguida pensei em perguntá-los: por que vocês, senhores guardas e policiais que são pagos pelos cidadãos não cuidam da praça? Contudo tive outro pensamento; esses senhores geralmente se imaginam acima do bem e do mal, se eu fizer esta pergunta eles poderão me prender e me apetece muito assistir o jogo entre o Grêmio de Porto Alegre e o Time da infame rede Globo, esses últimos sonegadores de impostos, especialmente aqueles inerentes à previdência social. Mas isso é só um detalhe, o que me importa mesmo é a praça, de modo que continuei a pensar e, logo me lembrei do romance Iracema. Como um filme vi passar na tela do meu horizonte a seguinte frase: “Os guerreiros tabajaras dormem. A filha de Araquém vai guiar os estrangeiros”. A próxima imagem do meu filme foi a da virgem, ela surgiu bem diante de mim, infelizmente não estava nua como quando se banhava na lagoa da Parangaba. Sem ter o que fazer sai do local, quando tinha andado o espaço que transpõe as pombas de um vôo, o chefe pitiguara tornou-se inquieto e murmurou ao meu ouvido; disse assim: “a prefeita reformou essa praça faz pouco tempo. Ontem e hoje realizou a IV conferência da cidade, nos mostra com isso os caminhos para chegarmos a uma cidade sustentável e bela, mas os guerreiros que deveriam cuidar da praça estão dormindo e em conseqüência a filha de Araquém sentirá vergonha de guiar os estrangeiros”.
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