O Haiti é aqui, ali e acolá
03/02/2010
Nem mesmo a publicação da lista de óbitos de mais de 200 mil haitianos conseguiu suscitar, nas esferas de poder, iniciativas, ações e medidas condizentes com um episódio dessa natureza.
Ainda pairam sobre nossas cabeças essas incertezas cruciais, pedaços de uma escuridão que se projeta ao longo dos tempos. Sinal? Castigo? Desafio às limitações humanas? Resultado dos descaminhos da humanidade? Prova de que a natureza é mais forte do que tudo e todos?
Revisando a história da humanidade, encontra-se na Bíblia Sagrada o registro de que Noé, no primeiro dilúvio que supostamente atingiu o planeta, construiu uma arca para abrigar todos os seres vivos, com o intuito de garantir a vida pós-dilúvio. Segundo esse relato, Deus comunicou-se diretamente com ele, incumbindo-o da missão de repovoar a terra.
Desde então, a humanidade, periodicamente, tem sido vitimada por fenômenos naturais de dimensões catastróficas, contra os quais o ser humano não pode se insurgir. Para citar apenas mais um exemplo, no século XVIII, quando a ciência já oferecia ao homem instrumentos significativos para consolidar o seu poderio sobre a Terra, Lisboa, cujo império perdurou por mais de três séculos, foi vitimada pela combinação de um terremoto e um tsunami, cataclismo que impactou o mundo moderno e abriu espaço para a ciência buscar seu aprofundamento, em consonância com os preceitos iluministas da época, o que desencadeou o surgimento de novos ramos do conhecimento, com destaque para a sismologia.
Da idade moderna à revolução pós-industrial e tecnológica, as tragédias causadas por fenômenos naturais continuam ocorrendo de uma ponta a outra do planeta.
Em que pese à impossibilidade de controlar esses acontecimentos, a ciência tem produzido conhecimento suficiente para prever as situações críticas que fatalmente ameaçam a vida de grupos e comunidades inteiras, localizadas em certas regiões, sobretudo as mais vulneráveis, do ponto de vista geológico. Atualmente, todas as regiões do planeta, devidamente mapeadas, são conhecidas em detalhe, principalmente no que tange ao contingente populacional de cada uma delas e o que elas representam na escala de valores e de produção do capital.
O sociólogo polonês Zigmunt Bauman, numa conferência ocorrida em Milão em março de 2004, levantou algumas questões que merecem atenção. Segundo ele, a modernidade produziu “gente supérflua”, pessoas consideradas inúteis por não terem sua força de trabalho plenamente aproveitada. Nessa mesma linha de pensamento, outros teóricos consideram que o progresso econômico pressupõe o mito de que se pode fazer qualquer coisa com menos esforço e gasto, desde que se garanta o controle dessa “gente supérflua” ou, numa situação mais ideal, o seu desaparecimento.
Coincidência ou não, a ocorrência de grandes catástrofes tem feito desparecer muita “gente supérflua” de países como Bangladesh, Nicarágua, El Salvador, Ruanda, Colômbia, Siri Lanka, Nepal, situados no chamado “corredor da pobreza”.
A explicação da tragédia do Haiti encontra respaldo no pensamento equivocado de algumas mentes que concebem o progresso como um processo seletivo, segundo o qual para que alguns grupos alcancem a plenitude social, política e econômica, outros tantos tenham que perecer.
Para se ter a exata medida do que esse desastre representa no mundo atual, é importante estarmos alerta quanto ao que vem sendo divulgado nos meios de comunicação. Cite-se a declaração de Pat Robertson, que reitera as teorias aludidas. Para ele, gente como a do Haiti não serve para nada, assim também como reconhece inúteis as manifestações religiosas daquele povo, que não foram capazes de defendê-los da grande tragédia.
A catástrofe no Haiti mensura a incapacidade de a ciência agir em tempo hábil, o que se soma à falta de vontade política de dar condições ao ser humano de enfrentar a natureza, pelo menos em igualdade de condições.
As valas abertas para receber os corpos de mulheres e homens, as crianças chorando, o estupro de mulheres que conseguiram escapar dos escombros lembram as cenas do ataque nazista na Segunda Guerra Mundial.
Como avaliar a destruição de tantas vidas e o desespero de outras por ter sobrevivido?
Quando será pauta do planejamento da ONU e do G8 garantir um plano sustentável para o ecossistema de regiões totalmente fora da receita do capitalismo?
O modelo da felicidade plena para os povos é uma utopia estampada em cada rosto esquálido, em cada olhar desesperado, em cada haitiano que, mesmo na previsível classificação do progresso econômico, continua vivendo e desafiando a todos nós na perspectiva de que sejamos capazes de defender a vida dos nossos semelhantes.
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