Uma conjuntura que dialogue com os gêneros
A tranquilidade é um bem humano excepcional e tem impacto direto sobre o meio em que as relações são forjadas. Tem sido alvo do mercado de pessoas e coisas que não se fartam de testar os limites imponderáveis do ter. Ter tranquilidade pode custar uma pílula, que custa uma produção, que custa um mercado, que custa… A natureza!
O cenário da crise que vivemos provoca nossa inteligência e remete-nos a um exercício de pensamento no qual o realce de alguns critérios deve passar por uma avaliação justa, seguida de uma preocupação eminentemente política. Tratar da crise como uma coleção de fatos a ilustrar um momento político, ou mais um cenário da história de mulheres e homens, pode ser uma opção, suficiente e satisfatória, para alguns(as). Porém , não deve ser um breviário a ser seguido se nos movimentamos na perspectiva mais dialética e profunda dos seres humanos e da política.
O diálogo com a sociedade não deve se encerrar na superficialidade das questões e de algumas coisas. O desenvolvimento predatório é apenas uma ilustração perversa da iniciativa econômica acobertada pelo guarda-chuva dos mandatários, legisladores e executivos. Os sinais estão bem claros para a maior parte da população do planeta. Este modelo de produção e de concentração de riquezas e renda não consegue dar conta das reais necessidades dos seres humanos e muito menos da natureza. Ou seja, é um modelo que se alimenta da ilusão e da superficialidade da maioria. A exploração é um fruto imoral da covardia e da fraqueza de tantos (as). Ocorre-me no momento uma sabia frase do camponês e poeta popular de grande expressão no mundo, Patativa do Assaré. Afirmava: “o estado financeiro é fraco”.
São 70 anos da 2ª Guerra Mundial até os dias de hoje. Há um movimento que culmina com o resgate da memória de todos os episódios que contribuíram com a história da guerra. É o caso emblemático da experiência do nazismo.
Hannah Arendt, escritora alemã, teóloga e filosófa, teve seu destino marcado por uma dura missão. Parte de sua família foi vítima do extermínio judeu pelos nazistas. Hannah foi presa e teve que sair do seu país de origem para fugir da repressão e da sua própria execução. As suas obras como: As Origens do totalitarismo, A condição Humana, Sobre a Revolução e Heichmann em Jerusalém, são resultado de um tempo marcado por duras vivências, experiências coletivas muitas vezes fixadas no recorte individual da tragédia experimentada por cada um (a) dos horrores da guerra, do totalitarismo que depende da banalização do terror, da manipulação das massas, do acriticismo face à mensagem do poder, da solidão organizada das massas. A sua obra acena e enfatiza a importância da política como ação e como processo, dirigida à conquista da liberdade.
Nessas duas últimas décadas, é perceptível o avanço desastroso de uma máquina de moer natureza e gente. A derrocada dos países do bloco socialista deixou marcas profundas no destino político da humanidade. A descrença e a frustração foram sentimentos canalizados para a reconstrução da hegemonia do capital.
O episódio da queda do muro de Berlim, tem se revelado como um elemento aliado a uma conjuntura que se move no sentido de negar o direito à história.
O Museu do Comunismo ( Museum of Communism), localizado em Praga, tombado como patrimônio da humanidade, na atualidade, promove uma campanha forjada numa visão unilateral pró hegemonia do sistema econômico vigente. Senão, vejamos cartões postais e souvenirs são comercializados dentro do museu, com imagens de líderes e dirigentes do regime comunista, e são anunciados com frases de tom jocoso e de fortes conteúdos incitando o preconceito, a homofobia e disseminando a intolerância, vazios de seu papel educativo e cultural. A crise civilizatória é recheada de um certo simbolismo que precisa ser interrogado, ou não?
Em sintonia com o pensamento das mulheres na história e na atualidade, vale ressaltar que na ocasião da passagem do centenário (2008) de Simone de Beauvoir, feminista e filósofa francesa, pus-me em alerta e em estado de prontidão, atenta e curiosa a observar parte do movimento de publicação em sites, revistas e jornais. Seus conteúdos? O que podem revelar? Cem anos da história de uma mulher militante que viveu no seu tempo e para além dele. O que os críticos, estudiosos e jornalistas teriam para realçar? Reparei que parte das abordagens são caricaturais e fazem um corte grotesco nos aspectos políticos da feminista, militante e filósofa. Com que intensão?
Incentivar o senso comum é uma dose que cabe a imprensa ministrar, o que faz muito bem. Fazer do mundo uma tela animada pelo sentimentos e pelas emoções. Parece ser uma tarefa da mídia e dos seus pensadores de primeira ordem, promover a geleia geral. Trata-se de um negócio auspicioso. É um espetáculo para encher os olhos.
Há mais de meio século Simone de Beauvoir questionava o direito da mulher sobre o seu corpo. O direito de decidir o aborto. Questões evocadas, tais como: a recusa do “futuro másculo”, o caráter não misto dos grupos feministas, a defesa do direito das mulheres à violência, a supressão da família em prol da comunidade.
O artigo de Silvie Tissot, socióloga, membro do Coletivo das Feministas pela Igualdade ( Collectif des féministes pour legalité) publicado no le Monde diplomatique, edição portuguesa; aponta uma análise sincera sobre o dossiê do Nouvel Observateur.
A crise civilizatória atinge de cheio a mulher em qualquer lugar que ela viva nesse planeta. Há uma guerra cultural de dominação em curso, de um gênero sobre o outro gênero, nas relações sociais, econômicas e politicas.
Entre o discurso de classe e extratos da população que ocupam os espaços e territórios (demarcações para construção da cidadania), áreas de riscos que servem como depósitos de gente, sonhos e esperanças, desaguam os conflitos. Acotovelam-se a existência de uma linha de forte enfrentamento com segmentos da sociedade e os guetos distribuídos na periferia do mundo. Movimentos com teor ideológico multiplicam-se na América Latina.
A Comunidade Europeia debate-se diante do dilema do controle da migração e dos tratados de cooperação entre os países. A inquietação dos jovens que nasceram sob os escombros do muro do leste europeu, tornou-se manchete mundial e repercutem por todo continente. O parlamento europeu desenha e redesenha modelos de políticas públicas com forte apelo a igualdade de oportunidades. O comércio de armas, drogas, o tráfico de seres humanos e a exploração sexual, fixou sua rota e seus escritórios organizados desde a Europa aos subalternos países equatorianos, das Américas, da África. De uma ponta a outra da costa litorânea do planeta, a Máfia, entre outras organizações, expandiu-se assim como a geografia da globalização. Com muita força burlam e ridicularizam o papel dos órgãos, cuja principal missão deve ser o combate à rede organizada do crime.
A vitória dos democratas na América do Norte sinaliza para um tempo de possíveis consensos, em torno do desenho hegemônico do capital, tão bem disseminado pelos republicanos. Mesmo assim, o parque de guerra continua montado com toda sua feitura delicada, subjetiva e sofisticada.
De certa forma, a agenda que apresenta unidade , ou melhor dizendo, pontos convergentes na conjuntura política global é o tema da reforma política. Sem duvida, hoje, a pauta da reforma deve estar para a sociedade assim como para os partidos, fincada nas questões mais enraizadas e que vem dando sustentação a um modelo esgotado e falido de sociedade e partido.
A democracia é matéria longamente discutida e assim deve ser. Democracia para que? para quem? para onde? Nesse contexto é lucido se permitir questionar situações que determinam o ambiente social e econômico nas distintas realidades partidárias. É fundamental trazer para o centro do debate a vertente cultural, política e social, capaz de mobilizar e incentivar os povos na busca pela construção da dignidade e da autonomia. Na atual conjuntura a percepção da ética se dar como um elemento que se sobressai no sentido em que se pode visualizar a regeneração de práticas e valores, embora, manipulados por uma cultura política caduca, sobrevivem a um fino ralo capaz de ressignificar o processo histórico, político e humano de mulheres e homens.
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