Sobre a tática eleitoral do PT/CE

04/04/2006 Sobre a tática eleitoral do PT/CE

Desde então, passei à condição de mero observador e militante eventual nos períodos eleitorais.
Quando da sua eleição para a presidência do PT/CE, Joaquim Cartaxo convidou-me a contribuir regularmente com artigos para o site do PT. Declinei do convite por considerar que meu prolongado afastamento do Ceará poderia ser prejudicial à minha capacidade de análise política conjuntural no plano local.

Recentemente, Eduardo Barbosa solicitou minhas contribuições quanto ao debate da tática eleitoral do PT/CE em 2006. Confesso que fiquei lisonjeado em saber que alguns amigos e companheiros ainda têm interesse nas minhas modestas opiniões, resguardadas nossas eventuais divergências.

Escrevi algumas linhas sobre o assunto e aceitei a proposta de inserí-las no site do PT. Faço-o na condição de quem não tem qualquer outro interesse que não seja o de contribuir para o debate de idéias. Vamos às minhas reflexões:

1. Considero que a prioridade eleitoral do PT em 2006 deve ser a reeleição de Lula. Isso em razão do significado simbólico dessa vitória para o avanço das lutas populares e democráticas. Reconheço que o Governo Lula vem alcançando, em diversos setores, resultados significativos em direção à democratização das políticas públicas. Todavia, também considero que há problemas graves de acomodação e adaptação aos comportamentos políticos tradicionais da elite brasileira, que se traduzem numa visão patrimonialista do uso da máquina pública em favor de interesses particulares, afrontando uma visão republicana e democrática do Estado. Acredito que esses desvios de conduta da cúpula do Governo Lula são os maiores responsáveis pela crise que se abate sobre o governo e sobre o PT. Não acredito na tese da “conspiração da direita”. A oposição está fazendo o seu papel. É o próprio PT e seus aliados que estão na origem da maior parte dos problemas que alimentam a crise. Portanto, a tarefa de reconstrução do PT também é uma prioridade.

2. Considero que Lula ainda é um candidato competitivo, mas não tem nenhum favoritismo. O PSDB tem operado com êxito a tática de tentar isolar o PT nos maiores colégios eleitorais. Caso a movimentação do PSDB no sentido de atrair o PMDB e manter a aliança com o PFL se concretize, vamos ter um difícil cenário pela frente.

3. A verticalização criou enormes dificuldades para Lula, que podem impactar na redução do tempo de propaganda eleitoral, vez que mesmo os aliados tradicionais estão preferindo não estabelecer alianças no plano nacional para facilitar composições no âmbito estadual. Sem candidaturas fortes nos estados, é provável que uma eventual reeleição de Lula, caso ocorra, o coloque numa situação de ainda maior fragilidade de sustentação política, pois certamente, em razão da crise do PT e do isolamento político em vários estados, é correto supor que não consigamos um bom desempenho eleitoral para o Poder Legislativo.

4. Considerando tudo isso penso que a tática eleitoral correta nos estados deve estar centrada na construção de palanques eleitorais fortes que auxiliem na reeleição de Lula e resultem num melhor desempenho eleitoral do PT e dos partidos da base de sustentação política do governo no Poder Legislativo.

5. Estando afastado do Ceará há 13 anos, é evidente que não tenho condições de fazer uma avaliação política precisa. Mesmo assim, avalio que seria desejável estabelecer uma aliança com o PSB e apoiar a candidatura de Cid Gomes ao governo estadual. Coerentemente com essa visão, penso que também seria desejável estabelecer uma aliança com o PMDB, apoiando a candidatura de Eunício Oliveira ao Senado. Tenho ouvido falar de movimentações recentes de Ciro Gomes em direção ao PSDB e da inclinação do PSB de não fazer uma aliança nacional com o PT para dispor de maior liberdade de composição nos estados. Obviamente, são questões a serem esclarecidas.

6.Afirmo, contudo, minha convicção de que o PT não dispõe de candidatos com efetiva capacidade de liderar uma vitória eleitoral no estado. Arrisco dizer que nem José Airton, nem Ilário Marques, nem Eduardo Barbosa, todos diletos amigos a quem prezo e respeito, reúnem, hoje, condições objetivas para articular as forças sociais e políticas necessárias à derrota do PSDB. Avalio que os melhores nomes do PT deveriam ser aproveitados na disputa das vagas ao Poder Legislativo, buscando preservar e se possível ampliar nossa bancada, a despeito de todas as dificuldades já mencionadas.

É o que penso, no momento. Acredito que devemos estar preparados para uma campanha muito difícil. O PT será fortemente atacado pela direita e pela esquerda, com argumentos convincentes. Portanto, não é hora de ufanismo partidário, nem de hegemonismo arrogante. Precisamos ser coerentes. Se a prioridade é a reeleição de Lula, então façamos as alianças necessárias para sair do isolamento e estabelecer o cenário mais favorável possível para lograr tal resultado.

Espero ter contribuído para a discussão, a despeito de eventuais diferenças de opinião que em nada interferem no nosso compromisso em seguir lutando por transformações sociais que nos aproximem dos ideais de justiça social e democracia que sempre perseguimos.

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