Resposta Ibiapino

24/11/2008 Resposta Ibiapino

Li o e-mail com toda atenção possível e realmente são muito bárbaras as afirmações do referido professor.

O mesmo companheiro, me pediu para que eu escrevesse algo sobre as afirmações do citado professor para divulgação no periódico Mandacaru; jornal popular que circula na região.

Para começar pensei no que deveria dizer de um professor de história que só tem o segundo grau. Seria ele um incapacitado intelectual? Um semi analfabeto? Um ignorante? Um imbecil? Não, esse homem não é nada disso, ele é um herói, porque o país onde ele nasceu não lhes deu condições de estudar em uma boa universidade ainda assim ele é professor. Esse mesmo país está colocando adolescentes nas mãos de um incapacitado para a profissão; inexoravelmente esses jovens serão profundamente prejudicados, não pelo dito professor, mas pelo estado brasileiro que é capitalista e “democrático”. Todavia incapaz de garantir aos seus jovens o mais sagrado dos direitos: que é o direito a educação de qualidade.

No meu país centenas de milhares de jovens estão fora da sala de aula, só no Ceará segundo o banco mundial são 34,1 por cento; dos quase sete milhões de habitantes, 57 por cento vivem abaixo da linha da pobreza e, Fortaleza, quarta capital do país, tem 700 favelas nas quais moram mais de 800 mil pessoas.

Eu lamento que ninguém se rebele contra essa situação deplorável em que vive a maioria do nosso povo, outros fazem pior, abominam a teoria da revolução, preferem morrer humilhados como bestas de cargas.

O nosso professor, disse que o Che e o Fidel fizeram uma maldita revolução que matou muita gente.

O direito a rebelião, é reconhecido desde a mais distante antiguidade até o presente, por homens de todas doutrinas, de todas as idéias e de todas as crenças.

Na Idade Média, Juan de Salisbury, em seu livro do Homem de Estado, diz que, quando um príncipe não governa com ordem e direito e torna-se tirano, é lícito e justificada sua deposição violenta. Recomenda que contra o tirano seja usado o punhal e não o veneno.

Santo Tomás de Aquino, na Summa Theologia, refutou a doutrina do tiranicídio, mas sustentou contudo, a tese de que os tiranos deveriam ser derrubados pelo povo.

Martim Lutero líder da revolução protestante, proclamou que quando um governo se torna tirânico, violando as leis, seus súditos estão livres do dever de obediência. Seu discípulo Filipe Melanchton sustentou o direito a resistência quando os governos se tornam em tirânicos.

Calvino, o pensador mais notável da Reforma, do ponto de vista das idéias políticas, defende o direito do povo de recorrer às armas para opor-se a qualquer usurpação.

Ivan Mariana, jurista espanhol da época de Filipe II, em seu livro De Rege at Regis Institutione, afirma que quando um governo usurpa o poder ou quando eleito, rege a vida pública de forma tirânica, é lícito que um simples cidadão, diretamente, ou valendo-se de alguma armadilha, o assassine com o menor distúrbio possível.

O escritor francês, Francisco Hotman: sustentou que, entre governo e súditos, existe o vínculo de um contrato, e que o povo pode rebelar-se contra a tirania dos governos quando estes violam aquele pacto.

Os reformadores escoceses Juan Knox e Juan Poynet sustentaram o mesmo poto de vista, e, no livro mais importante desse movimento, escrito por Jorge Buchanan, afirma-se que, se o governo alcança o poder sem contar com o consentimento do povo ou rege seu destino de uma maneira injusta e arbitrária, convertendo-se em tirânico e pode ser destituído ou, em último caso, ser executado.

Juan Altusio, jurista alemão do princípio do século XVII, em seu Tratado de Político, diz que a soberania, enquanto autoridade suprema do Estado, nasce do consenso voluntário de toso os seus membros, que a autoridade do governo vem do povo e que o seu exercício injusto, ilegal ou tirânico exime o povo do seu dever de obediência e justifica a resistência e a rebelião.

A declaração de Independência do congresso de Filadélfia de 4 de julho de 1776, consagrou o direito a rebelião em uma bela página que diz: “Sustentamos como verdades evidentes que todos os homens nascem iguais; que a todos o Criador confere certos direitos inalienáveis entre os quais estão a vida e a liberdade e, em conseqüência, a felicidade; para assegurar estes direitos os homens constituem governos cujos poderes derivam do consentimento dos governados; que sempre que uma forma de governo tende a chocar-se com esses objetivos, o povo tem o direito de reforma-lá e aboli-lá, e instituir um novo governo que se identifique com os referidos princípios e organize seus poderes na forma que, a seu juízo, garanta melhor sua segurança e felicidade”.

A célebre Declaração francesa dos Direitos do Homem legou às gerações futuras este princípio “Quando o governo viola os direitos do povo, para este a insurreição é o mais sagrado dos direitos, e o mais imperioso dos deveres. Quando uma pessoa apodera-se da soberania ela deve ser condenada à morte pelos homens livres”.

Esses relatos são de Fidel Castro em A História me absolverá, em nossa América temos milhares de exemplos que poderíamos dar, das lutas em defesa da liberdade e da vida, mas penso que o periódico Mandacaru terá que fazer um caderno especial para conter minha resposta e eu não sei se os companheiros estão dispostos a isso. Portanto citarei apenas cinco nomes sagrados da nossa história como libertadores da América: Céspedes, Agramonte, Maceo, Gómez e José Martí foram eles nomes sagrados na memória dos cubanos e também na nossa, ensinam-nos que o Titã (Maceo), tinha dito que a liberdade não se mendiga, mas se conquista com o fio do facão.

E por último José Martí em seu livro A Idade de Ouro; escreveu: “Um homem, que se conforma em obedecer leis injustas e que permite que o país que nasceu seja tomado por homens que o maltratam, não é um ser honrado… no mundo, é necessário certa quantidade de decoro, como é necessária certa quantidade de luz. Quando há muitos homens indecorosos, há sempre outros que possuem o decoro de muitos. Estes são os que se rebelam com uma força terrível contra os que roubam ao povo sua liberdade, o que representa roubar seu decoro. Estes homens encarnam milhares de homens, um povo inteiro, a dignidade humana…”

Penso que foi possível mostrar que a teoria da revolução não é uma coisa do Che Guevara ou do Fidel Castro, mas sim um fenômeno social aceito por todos os historiadores e pensadores de todos os tempos. Apenas escritores reacionários e fascistas, opuseram-se a este direito dos povos; sendo o maior deles um pastor medíocre do Estado da Virgínia, Jonathan Boucher, que disse: “O direito à revolução é uma doutrina condenável, derivada de Lúcifer, o pai das rebeliões.”

“O Fidel fez guerra na África.”

É uma pena que o professor não sabia explicar os motivos das guerras na África, e, por causa dessa incapacidade intelectual, elabore apenas uma manchete vulgar e por conseguinte desprovida de qualquer valor histórico. É ainda curioso que o professor seja tão preocupado com o problema da guerra e não diga aos jovens alunos, que não o comunismo, mas sim o capitalismo fez entre muitas, duas grandes guerras que convencionamos chamar de primeira e segunda guerra mundial; nelas foram mortas sessenta e quatro milhões de seres humano. Também não vi ele dizer que os Estados Unidos detonou duas bombas atômicas em duas cidades japonesas (Hiroshima e Nagasaki), em apenas dois segundos duas cidades foram destruídas e quase trezentas mil pessoas mortas. Esse mesmo Estados Unidos financia uma brutal guerra entre os irmãos de Israel e da Palestina. Quantos são as vítimas dessa guerra senhor professor? Porque o senhor não fala delas aos seus alunos? Será que é porque essa guerra santa é feita em nome de Deus?

Lá no Afeganistão e no Iraque os soldados do George W. Busch, “pai” da democracia, já mataram mais de quinhentos mil pessoas, o senhor também não fala dessas duas guerras, é ignorância de sua parte ou má fé?

Os Estados Unidos também fez uma grande guerra civil, guerra da secessão, na época a nação se dividiu em dois blocos: os do sul e os do norte.

A Irlanda do Norte está em guerra civil há 85 anos, de um lado estão os católicos, contra a independência da nação, do outro estão os protestantes, (crentes ou evangélicos), que querem a independência. Essa guerra da Irlanda, é igual guerra da Angola (África), na qual os angolanos lutavam pela independência frente a África do Sul, essa, apoiada pelos Estados Unidos massacrava o povo angolano. Foi nesse contexto que Cuba entrou na guerra. A ajuda de Cuba foi decisiva para evitar o massacre e tornar a Angola uma nação livre e independente. Os Estados Unidos que mandavam armas, munição e homens para agredir covardemente aos angolanos, teve que se sentar a mesa diante do comandante Fidel Castro e assinar o acordo de paz. Na mesa de negociação representava os norte americanos, o subsecretário de Estado para assuntos africanos, Chester Crocker.

Sobre isso o professor também não falou; escondendo de seus alunos a verdade histórica contemporânea, eu não quero fazer juízo de valor, mas se ele omite a verdade de forma intencional, despreza a ética. Valor indispensável a um professor.

Entre as indecentes afirmações, talvez a mais grave seja a de que, há mais cubanos no fundo do mar do que nos cemitérios de Cuba.

Aí o professor se desmoraliza por si só, hoje vivemos na era da robótica, o mundo está globalizado, a juventude tem acesso aos livros, a televisão, ao rádio e até ao computador e, ainda assim um professor de história acreditar que seus alunos são estúpidos ao ponto de acreditar que Cuba, país onde chegou Cristóvão Colombo, em 1492. Portanto com mais de 500 anos, tenha morrido em todos esses anos, menos pessoas do que aqueles que tentaram sair do país a nado. Afirmar uma besteira dessas, ou é uma loucura vinda de um fanático que fora do uso da razão diz o que vem a cabeça, ou é um ato cômico, de alguém que gosta de fazer gracinhas.

O fenômeno migratório, é histórico e mundial, inclusive a humanidade em seus primórdios era nômade. Hoje não somos considerados nômades, mas temos que admitir que o o fenômeno da migração persiste com muita força. Dados estatísticos mostram que 270 mil brasileiros vivem no Japão, porque migraram? O Brasil não é um país comunista!

Na fronteira do México com os Estados Unidos há um grande muro; chamado Muro de San Diego, seu objetivo é impedir que latinos-americanos penetrem no território norte-americano, além do muro, há um forte esquema de segurança armada e, ainda assim milhares de pessoas inclusive brasileiros arriscam suas vidas naquela perigosa travessia; porque? Seria culpa do Fidel?

Concluo minha resposta dando ênfase a terrível confusão teórica e mental porquê passa o professor de Araquém. Na prova aplicada, item III, ele afirma: “Uma segunda revolta tenentista teve início em São Paulo no dia 05 de julho de 1924. Os revoltosos, comandados pelo Gal. Isidoro Dias Lopes, tinham o objetivo expresso de derrubar o presidente Artur Bernardes. Ocuparam a cidade de São Paulo.”

Item IV, os quartéis foram bombardeados pelas tropas legalistas, e os revoltosos retiram-se para Foz do Iguaçu, no Paraná, em abril de 1925, uniram-se a um grupo de militares rebeldes vindos do sul do país, comandados pelo tenente João Alberto e pelo capitão Luís Carlos Prestes. Tinha inicio a Coluna Prestes, cujo principal objetivo era percorrer o interior do Brasil para incentivar a rebelião da população contra o governo e a elite agrária do país.

Item V, em sua marcha pelo Brasil, os tenentes denunciavam a miséria da população e constataram de perto a exploração das camadas populares pelos líderes políticos locais. Assim firmaram a convicção de que era preciso mudar a situação sócio econômico do Brasil e substituir o governo.

Em todos os itens fica claro que na história do Brasil houve muitas lutas contra o poder dominante do capitalismo. No item V, se ler: “Em sua marcha pelo Brasil, os tenentes denunciavam a miséria da população e constatava de perto a exploração das camadas populares pelos líderes políticos locais”.

Como se vê ele condena a teoria da revolução, mas trata de revolução o tempo todo; sem se dar conta do que está fazendo, (confusão mental e teórica).

Professor, neste país livre, mas que não lhe deu oportunidade de estudar plenamente, veja a coincidência histórica entre os itens citados na sua prova e as afirmações de Fidel Castro, por ocasião da luta dele e do médico Che Guevara, contra os poderosos de Cuba na época: “Em Cuba nas escolinhas públicas do campo, a metade das crianças em idade escolar freqüentam a escola descalças, semi nuas e desnutridas, e muitas vezes é o professor que adquire, com seu próprio salário, o material necessário. È assim que se pode fazer uma pátria livre e grande?

De tanta miséria só é possível libertar-se com a morte; e isso sim, o Estado os ajuda: a morrer. Noventa por cento das crianças do campo são devoradas por parasitas, que da terra infiltram-se pelas unhas dos pés descalços. A sociedade comove-se diante da noticia do sequestro ou assassinato de uma criatura, mas permanece criminosamente indiferente, frente ao assassinato em massa que se comete contra milhares de crianças, que morrem todos os anos por falta de recursos, agonizando entre os estertores da dor, e cujos olhos inocentes, estampando o brilho da morte, parecem olhar para o infinito, como se pedissem perdão para o egoismo humano, e para que não recaia sobre os homens a maldição de Deus. E quando um pai de família trabalha quatro meses ao ano, como pode comprar roupas e remédio para seus filhos? Crescerão raquíticos, aos trintas anos não terão um dente bom na boca, terão ouvido dez milhões de discursos, e, finalmente, morrerão de miséria e decepção. O acesso aos hospitais do Estado, sempre repleto, só é possível mediante a recomendação de um poderoso político que exigirá do infeliz seu voto, e o de toda sua família, para que Cuba continue sempre igual ou pior.

Foi neste contesto meu caro professor de Araquém, que o médico Che Guevara, o comandante heróico Fidel Castro e também o povo cubano lutaram e continuam a lutar contra os poderosos, os mentirosos, o império norte-americano e até os ignorantes espalhados pelo mundo.

Na luta pela libertação de Cuba, Fidel Castro teve uma semelhança com Deus; que para libertar seu povo da escravidão do Faraó no momento em que era perseguido por seiscentos carros, uma grande cavalaria e um poderoso exercito; Deus mandou Moisés entrar no Mar Vermelho, após a travessia, Deus fechou o mar matando os inimigos, que também devem estarem no estomago dos tubarões do salgado Mar Vermelho.(Êxodo cap. 14, ver. 26 a 31).

“La ignorancia es cómplice de muchos males. Los conocimientos deben ser el aliado fundamental de unos pueblos que aspiran, a pesar de tantas tragedias y problemas, a emanciparse de verdad, a construir un mundo mejor” – Fidel Castro

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