REPUDIO V

09/03/2010 REPUDIO V

Estávamos todos acampados na Avenida Bezerra de Menezes, eram mais de 1500 trabalhadores rurais sem terra e uma centena de militantes de esquerda, apoiadores da luta pela reforma agrária. Na avenida o sofrimento era grande. Durante o dia a temperatura chegava a 40 graus centígrados e a noite, ao contrário, fazia frio. Quem mais sofria eram as crianças e os idosos. Apesar de tudo uma coisa nos alimentava, a esperança de que o governo Tasso Jereissati nos chamasse para negociar e, então atendesse nossa reinvidicações.

Certo dia o telefone toca, quem atendeu foi um dos nossos padres defensor dos pobres e amigo do MST. A pessoa que fizera a ligação era alguém da própria polícia, só não sabemos quem, por isso a chamamos “Soldado de Deus” na sua fala rápida e agitada ele disse: “o governador montou uma operação para retirá-los da avenida a qualquer custo são muitos homens bem armados, dois carros dos bombeiros, dois rabecões do IML e no mínimo cinco ambulâncias, será um massacre a operação prevê até morte”.
Imediatamente os padres reunirão-se e chegaram à conclusão de telefonar para a imprense; logo um batalhão de repórteres chegou ao local antes mesmo do da polícia. Fomos sitiados, durante o resto da noite e o outro dia, quem estava dentro não saiu, quem estava fora não entrou. Alimentação e água também foi proibido de entrar no acampamento; passado tanto tempo ainda emociona lembrar aqueles momentos de terror, humilhação e medo.
Por sorte não morreu ninguém, nós agradecemos ao “Soldado de Deus” e a imprensa do Ceará que denunciou a truculência do então governador.
De fato éramos oposição e exercíamos esse dever revolucionário com radicalidade, mas sem perder a ternura jamais, porque nossa luta era, sobretudo pela vida, onde todos e toadas a tivesse plenamente.   
Antonio Ibiapino – direção do PT.    

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