O que está em jogo em 2010?
No ano que vem teremos um momento decisivo da nossa história. A importância de “2010”, obviamente que não reside somente pelo fato de termos eleições quase que gerais. Escolheremos o (a) presidente da República, os (as) governadores (as), senadores (as) (2/3) e todos (as) deputados (as) federias e estaduais. Teremos Copa do Mundo, esse evento esportivo mundial alegra mais ainda o nosso povo, já festivo por natureza. Mas não será a conquista do título mundial de futebol o feito histórico decisivo que me refiro. O que estará em disputa em “2010” é o futuro do nosso país, o “jogo” mais importante para nosso povo será outro.
É sobre esse momento decisivo da nossa história e a magnitude da sua importância que discorrerei nesta modesta contribuição ao meu partido.
Não teremos ano que vem, apenas “mais uma eleição” no nosso recheado calendário eleitoral ou muito menos a reduzida discussão de termos ou não a continuidade de um projeto de governo. Estamos diante de uma grandiosa e importantíssima disputa de poder. Dada a nossa opção política de método para construção do projeto Democrático e Popular o processo eleitoral vindouro será um dos mais importantes e cruciais elementos da nossa construção e ação partidária nos nossos quase 30 anos de lutas. O que estará em é o futuro do país. Diria sem medo de errar, que nas eleições do ano que vem estará em disputa o Brasil que teremos no século XXI. O significado de mais uma vitória eleitoral das esquerdas e das forças progressistas aliadas para presidência da República, nos estados, bem como nas eleições de uma grande bancada parlamentar em todos os níveis, ainda não foi assimilada pelo conjunto do partido em toda sua amplitude, dimensão e importância histórica.
É decisivo para o PT ter essa dimensão, não se trata de uma posição individual ou de uma corrente. Estamos falando de uma elaboração central, necessária para compreendermos o que realmente estará em jogo nas eleições já antecipadas de 2010.
O PT sempre teve claro que não existe dicotomia entre luta social e eleições. Aliás, vencermos eleições e governarmos na sociedade capitalista só tem sentido se essas experiências forem frutos das lutas do nosso povo e ao mesmo tempo impulsionadora das mesmas. Temos a compreensão que nosso embate com as classes dominantes, não se dá somente no âmbito institucional. Não temos nenhuma dúvida de que as eleições é um importante, mas não o único palco dos embates de classe que acontecem na sociedade. O nosso embate por uma nova sociedade se dar a todo instante, no cotidiano, em todos os espaços. Combinar ações institucionais com a luta social é condição indispensável para derrotarmos definitivamente os “donos do poder no Brasil”. Lembremos, estamos disputando com uma elite que tem sua gênese assentada em uma visão de mundo autoritária e anti-povo, foi a última do planeta a “ceder” a pressão dos negros na sua luta contra a escravidão. A elite brasileira vem perdendo algumas batalhas, mas não é estrategicamente correto subestimá-la. A mesma ainda detém grande força política, econômica e social. Não custa lembrar que as duas eleições presidenciais que vencemos foram decididas no segundo turno. Os escravocratas, privatistas, conservadores e reacionários poderosos brasileiros nunca vacilaram e não vacilarão em pôr em prática novamente (principalmente se nos derrotarem na “Batalha de 2010”) seus métodos anti-republicanos. Portanto companheiros (as), não podemos vacilar, é muita luta, mobilização e enfrentamento duro em todos os nossos espaços de atuação com o entulho neoliberal, seus aliados e porta-vozes.
A lógica de poder das elites brasileiras tem sido marcada despudoradamente pelo autoritarismo, a concentração de renda, saber e poder, o patrimonialismo, o machismo, o mandonismo, o racismo, o conservadorismo e o preconceito contra o nosso povo, sobretudo os mais pobres. De extrema subserviência ao capital internacional, nossa elite também é afeita (é bom não esquecermos) a saídas golpistas anti a perca do seu poderio lastreado em quase cinco séculos de domínio econômico e político do país. Em praticamente toda nossa história pós-invasão européia o Estado tem se confundido com a própria extensão dos seus negócios. Estamos vivenciando o mais enraizado processo de superação desta lógica, mas é inquestionável que há muito por fazer.
O PT tem na atual conjuntura uma tarefa histórica. Para concretização dos seus objetivos estratégicos é decisivo que reelejamos o ou a sucessora petista do companheiro Lula. Nunca na nossa história um processo eleitoral, representará e significará tanto a disputa de rumos em curso no país como o que ocorrerá ano que vem.
Estamos diante da possibilidade real e concreta de consolidarmos o acerto de contas com a elite brasileira que sempre fez da miséria do nosso povo a pilastra mestra da sua sobrevivência. No ano que vem teremos um “divisor de águas” na vida social e política do país.
Por isso que nas eleições de outubro de 2010 estaremos “jogando uma partida decisiva” para a história do Brasil e sua inserção soberana na geopolítica contemporânea. É evidente que por isso nosso programa deve ser claro nos seus objetivos estratégicos. Assim fazendo estaremos edificando nossa vitória e aumentando a compreensão do nosso povo de nossos objetivos estratégicos. Não nos enganemos quão mais claro for nosso programa de transformação social, maior será nossa capacidade de mobilização do nosso povo. Não se trata somente “reelegermos a (o) sucessora (o) do Lula.”. Não tergiversemos, quando mais incentivarmos e participarmos ativamente das lutas do nosso povo, mais estaremos contribuindo de forma efetiva com a reeleição do nosso projeto. Cumprir a missão histórica do PT é lutarmos incansavelmente para construirmos um país justo, soberano, democrático, igualitário, fraterno e socialista. Aprendemos e é bom estamos conscientes que não faremos isso sem luta. Devemos está na linha de frente das lutas que realmente colocam o partido no embate real com a elite do nosso país. É assim que construiremos uma ampla base social, consciente e politizada fundamental para sermos vitoriosos nos embates sociais e institucionais que devemos aprofundar e combinarmos cada vez mais com os movimentos sociais tendo o PT como seu centro impulsionador e mobilizador. O debate em torno da democratização das comunicações é um bom exemplo.
Devemos transformar nossas lutas imediatas em lutas anti-sistema. O PT deve participar ativamente das lutas contra as demissões causadas por mais uma crise do capitalismo. É decisivo para consolidarmos nosso projeto histórico reforçarmos a luta da classe trabalhadora. Luta por melhores condições de trabalho e salários, luta pela terra, pela autorganização dos trabalhadores/trabalhadoras e do povo, pelo fortalecimento da CUT, do MST e da CMP, incentivarmos e colaborarmos com as lutas da juventude, a luta pela diversidade sexual e a superação da desigualdade de gênero e a opressão sexista.
Outra tarefa que fortalece nossos embates com as elites nativas é ampliarmos nossa solidariedade com os povos oprimidos do planeta. A solidariedade progressista internacional (do nosso governo inclusive) tem ajudado a desencorajar tentativas golpistas na América Latina. Esse é um dado importante
Difundirmos os valores socialistas de solidariedade, justiça e igualdade, da convivência harmônica entre os povos e as gerações, lutarmos pela democratização das comunicações, contra o trabalho infantil, redução da jornada de trabalho, demissão injustificada, pela auto-gestão das empresas sejam privadas públicas dentre outras, são bandeiras que devamos impulsionar.
Essas são tarefas permanentes de um partido de esquerda e seus militantes, assim colaboramos com os nossos governos, facilitando suas continuidades (com eleições politizadas e mobilizadoras da sociedade) e o aprofundamento do projeto democrático e popular. Não bastam intenções vanguardistas, autoproclamatória que pensam, agem e falam em nome do povo, caminho curto para que se confundam reivindicações imediatas e corporativistas, legitimas ou não com consciência política e pior ainda com uma “consciência pré-revolucionária” das massas. Em alguns casos (e não são poucos) os embates sociais se dão entre o Estado (principalmente no caso dos servidores públicos, mas não somente) e os interesses legítimos da população ou de um segmento social (não me refiro aqui somente à luta dos servidores públicos). Nesses casos, se estamos no governo (esquerda socialista) o diálogo é fundamental para avançarmos nas conquistas quando possível, mas, sobretudo para não transformamos as reivindicações justas e limitações reais do Estado em impasses marcados pelo sectarismo que prejudica a compreensão dos limites de se governar no capitalismo prejudicando o acumulo de forças para sua superação. Ao agirmos de forma sectária deixaremos de potencializarmos a luta anti-sistema e abriremos o flanco tanto para direita como para o “esquerdismo”.
Perderemos assim uma importante oportunidade de somarmos forças rumo ao nosso objetivo estratégico geral que é a luta pelo socialismo. O partido tem que ter autonomia em relação ao governo. Esse é um principio do PT. Não podemos é confundir o PT ou mesmo a esquerda governando com um real programa de ganhos materiais para classe trabalhadora e o povo com um governo qualquer. Cabe, portanto ao partido e seu militantes também politizar essa questão sobe o risco de termos escamoteado sob o manto da “autonomia” a falta de estratégia comum nas lutas institucionais e de rua, gerais e específicas prejudicando a consolidação dos nossos objetivos estratégicos.
Recorro a esse tema discutindo as eleições de 2010 por achar que no aprofundarmos do projeto democrático e popular teremos que ter esse debate resolvido.
Se não tivermos essa compreensão teremos dificuldade em combinarmos a ocupação dos espaços institucionais com nossa luta estratégica que é a construção do socialismo. Sem termos essa clareza, valorizaremos a prejudicial falsa polêmica “ser governo” e ou “ser partido” ou ainda “ser governo” ou “ser movimento social”. É importante também que os governos progressistas e de esquerda (em todos os níveis) aprofundem no âmbito institucional os embates que podem ser feitos com as elites destituindo a lógica de Estado herdado do domínio secular das elites.
Combinado essas ações, e a conjuntura nos é favorável, fortaleceremos os elementos que nos ajudam a consolidarmos o projeto democrático e popular rumo a uma transição socialista é a nossa contribuição internacionalista efetiva para a construção de um “outro mundo possível”.
Superar o atual modo de produção que destrói a cada segundo milhões de vidas humanas, degradando a natureza, pondo em risco a própria sobrevivência do planeta, legando a bilhões de irmãos a miséria, a fome, e o mais grave a descrença e a desesperança que o mundo poderia ser diferente não é um tarefa, é um dever humano.
Por tudo isso a chapa de 2010 de Presidente (a) e Vice da República não pode ser composta por quem não traz na sua trajetória de vida e na sua compreensão histórica os elementos descritos acima. Não há contraponto desta posição com uma importante política de alianças com setores progressistas e de centro que dê sustentação política ao projeto. O embate político que reflete a disputa social em curso vem clarificando “quem é quem” no cenário político atual. Cada vez mais se cristalizam os pólos políticos partidários que simbolizam o “time” do povo e o das elites. É cada dia mais evidente a polarização entre a esquerda simbolizadas no PT e aliados e a direita brasileira aglutinada majoritariamente em torno do PSDB/DEM.
Sobre políticas de alianças, relação entre classes e seus papéis gostaria de tecer alguns comentários. Amadurecemos o bastante em nossos 29 anos de lutas, sofremos derrotas e conquistamos importantes vitórias, mas em dois erros que marcaram a trajetória da esquerda ao longo da sua história não podemos incorrer mais. O rebaixamento programático e o sectarismo.
O primeiro equívoco se reflete bem no debate sobre as alianças políticas, essas são necessárias, corretas e decisivas para nossas vitórias principalmente quando reforçam e não descaracterizam nosso programa. Lembremos alianças políticas e mesmo eleitorais não são feitas somente com partidos.
O PT nasceu crítico “as soluções por cima” no “tapetão”, tomadas pelos “cartolas”. Somos a prova concreta de que a classe trabalhadora é capaz de construir a história com suas próprias mãos. Surgimos como a antítese popular ao pacto das elites que infelizmente esteve presente na concepção de importantes setores de esquerda por algum tempo. A construção do Brasil para os brasileiros sofreu severos reveses por conta da crença equivocada por parte das forças populares que uma aliança com a burguesia ou setores burgueses seria um passo decisivo para a construção do “processo revolucionário no país”. Em um dado momento da nossa história confundimos o legitimo debate sobre políticas de alianças com um “aliancismo” desenfreado que lembrou em certa medida a lógica que nascemos para desconstituir, quase repetíamos esse erro. Tal postura foi impulsionada por um desejo legitimo de “chegarmos ao poder” (apesar de ser nossa também uma importante elaboração de não confundirmos governo com poder). A confusão entre chegar ao “poder” ou/ao “governo” ganhou fôlego após nossa derrota em 1989. Naquele momento alguns companheiros (as) atribuíram a uma política de aliança pouco ampla o principal motivo da nossa derrota. O que se seguiu foi o reverso da moeda. Uma confusão entre alianças estratégias e “aliancismo”. Era como se o elemento para não termos “chegado lá” tivesse sido somente a falta de alianças mais amplas. Só lembrando depois das eleições de 89 só fomos para o segundo turno em 2002. Sou um dos que não acreditam que a burguesia ou algum dos seus setores será portador das mudanças que levará o nosso povo a superar as mazelas sociais históricas. É no mínimo uma contradição achar que burguesia (ou seus setores) que sobrevivem da miséria do nosso povo irá algum dia querer superar a lógica que a sustenta. O outro equivoco é o sectarismo que já tratamos em outra parte do texto. Hoje a correlação de forças que a luta e classe nos impõe queiramos ou não, além de algumas lições pelas quais passamos nos reconduziram ao nosso leito natural. Há problemas de outra ordem, mas o rebaixamento programático e o sectarismo estão sendo superados no caminhar. Essa clareza programática, o não sectarismo sem “aliancismo”, mas com alianças (principalmente com o povo e seus movimentos) programáticas e estratégicas será decisivo para nossa vitória. Não nos enganemos quanto mais se demarcado estiverem os campos que disputam os antagônicos projetos de poder em curso no país, mas compreensível será para o povo discernir quem está jogando do seu lado. Nossas opções governamentais de inversão de prioridades pesarão nesse momento, temos que saber transformá-las em força política social
Em 2010 não teremos “um jogo qualquer”, pelo que apontamos aqui e por outros motivos que merecem aprofundamento, estaremos diante da “partida” das nossas vidas. De um lado o “time” do Brasil dos nossos sonhos, das nossas lutas, do nosso do povo, parte importante do sonho de liberdade dos povos latinos que começa a se tornar realidade, vinculado com o sonho mais generoso acalentado pelos povos do planeta; o socialismo. Do outro o “time” das elites que nunca “jogaram” ao lado ou com o povo, somente contra ele. Não é hora de testes, é hora de “escalarmos o time principal” com seus (suas) “melhores atletas”, aqueles e aquelas que suaram a camisa o tempo todo, lutaram durante toda sua vida e não fogem, não fugiram e não fugirão nunca da luta. Pelos que nos legaram essa responsabilidade histórica e pelos que virão, cumpramos nossa missão histórica. Luta, luta ousadia, ousadia. Dilma candidata a presidência pelo PT.
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