O Brasil na Newsweek
Especialmente neste momento de grave crise mundial isto é, quando precisam do nosso “cofrinho” para pagar a fatura da lambança dos “brancos de olhos azuis”. Talvez porque raciocinem que o tratamento adequado a uma cultura de aborígenes colonizados sejam ainda os brindes de “espelhinhos” pra gente se divertir, prescindindo de iniciativas concretas em termos da política de reciprocidade, a qual tem pautado o posicionamento internacional do Brasil desde o início do primeiro governo Lula. Recentemente, por exemplo, enquanto Obama elogiava Lula por um lado, por outro avisava que o etanol brasileiro continuará taxado e que tampouco têm a intenção de aceitar o assento permanente do Brasil no Conselho d Segurança da ONU: dois itens da agenda internacional brasileira. Em outras palavras, Obama tem suas razões para jogar para (sua) platéia, preferindo medidas conservadoras, em meio ao cenário de incertezas no plano global.
Ilustrando essa linha de injustificada empolgação recente está a repercussão da matéria “The crafty superpower” (em: http://www.newsweek.com/id/194604/page/1), em tradução livre, algo como “A superpotência feita artesanalmente”, publicada na revista esdadosunidense Newsweek. De certa forma, a publicação encarta uma leitura distorcida do papel do Brasil na geopolítica latino-americana e mundial, chegando ao ponto de falsificar alguns aspectos, possivelmente com intuito de folclorizar a figura do presidente. Faltou paciência para traduzir o texto (nada que a ferramenta de idiomas do Google não seja capaz de sanar razoavelmente, para quem quiser fazer uma consulta amiúde) mas creio que seria bom ler no original e não se restringir às apressadas interpretações de parte da mídia tupiniquim, para se evitar tanto o derrotismo quanto o ufanismo cego, inútil à criticidade construtiva e facilmente desmontável pelo golpismo da direita.
Vejamos: no geral o artigo sustenta a tese de que o Brasil está se tornando uma potência no hemisfério sul, em contraponto com a suposta postura hostil emanada do (arquiinimigo) governo venezuelano. Afirma que a força econômica nacional tem imposto a supremacia brasileira nos acordos comerciais firmados entre os países e que isso seria uma forma de influência de peso nos governos da região.
Ora, em primeiro lugar, como é próprio de uma concepção materialista mecanicista, a análise superestima o papel do mercado como fator de barganha e chantagem política. Mesmo que assim fosse, esta visão contrasta com a política do governo brasileiro na região, que aponta no sentido da cooperação integrada e soberana, o que pauta o esforço diplomático nacional e as próprias falas de Lula, que a todo momento refletem isso.
Analisemos mais detalhadamente o que diz a revista: Ela começa dizendo que Lula, torneiro-mecânico, passou décadas fustigando o “capitalismo selvagem” e agora é festejado por banqueiros, e se considera “chique” por emprestar uma grana para socorrer o (arrogante interventor falido da malfadada política neoliberal) FMI. Que bela caricatura mereceu o Presidente, não?
Em que pese a leitura condescendente de otimistas, a matéria não escamoteia a existência da pobreza e do histórico de altos e baixos na economia brasileira (embora adiante tais aspectos simplesmente desapareçam como que por encanto). Tais fatores convivem com o que a revista chama de “democracia sólida de livre-mercado”, uma “rara ilha de estabilidade em meio a turbulências” e “regida pelo estado de direito frente a regimes autocráticos”. Segue ainda tecendo loas ao Brasil como “única superpotência emergente regional”, exercendo sua hegemonia econômica, sem adversários a altura para supostamente “sacudir ou cooptar” seus vizinhos (inclusive sua suposta principal “rival”: a Venezuela).
Lula, na entrevista ao analista de relações internacionais da CNN, Fareed Zakaria, durante a visita aos EUA em março, afirmou precisamente o inverso: que o Brasil não nutre pretensões imperialistas, mas que quer um desenvolvimento equilibrado na região e que respeita a soberania das nações. Disse ainda que o Brasil tem vários investimentos na Venezuela e que sugere a aproximação dos presidentes Chávez e Obama.
De certa forma, o que o texto mal consegue disfarçar é que a política interncional emanada do governo brasileiro está em choque precisamente com os históricos interesses imperialistas do governo estadosunidense para a região, que atualmente não encontram eco num cenário cada vez mais à esquerda na América Latina. Por isso mesmo que seu escopo ideológico midiático prefira pintar o isolamento do Brasil e forjar um contraste artificial em relação aos demais países, especialmente a Venezuela.
Tal desconforto fica evidente mais adiante: ao responsabilizar o Brasil pela formação do grupo de emergentes “BRIC” (Brasil, Rússia, Índia e China), países que contrariam as políticas de subsídios agrícolas que interessam aos países do Primeiro Mundo, inclusive os EUA. Lembra ainda que recentemente foram implantadas 35 novas embaixadas brasileiras, a maioria na África e Caribe e cita a atuação brasileira na controversa missão de paz no Haiti.
Antes porém segue enunciando episódios que ilustram o “jeitinho” brasileiro de exercer uma política externa não belicosa (sem “brandir sabres”): nos conflitos de fronteira entre Equador e Peru e depois com a Colômbia (quando do bombardeio das FARC em território equatoriano pela aviação colombiana) foram enviados diplomatas e advogados. Na atuação da ONU na contenção da guerra civil do Haiti, não foram enviadas mais tropas e sim jogadores de futebol. Isso tudo parece meio óbvio, mas não para um país como os EUA, que viveu a farsa das “armas de extermínio em massa”, com a vergonhosa complacência da mídia, para justificar a desastrosa intervenção no Iraque.
Para explicar tanto sucesso, a análise revela que o Brasil não enfrenta contendas com inimigos externos, graças ao “último bastião da paz na região”: que são os EUA, evidentemente (ahahah, eles se acham mesmo, né?) a prova disso é que os investimentos militares do Brasil permanecem há muito tempo em 1,5% do PIB (como se houvesse a obrigação paranóica do crescimento permanente) comparado com a China que gasta 25% do seu PIB e a Rússia e a Índia que gastam 60%. A explicação remete ao conceito de “cordialidade” sergiobuarquedhollandeano e novamente ao mito da passividade dócil do colonizado, sintetizado no eufemismo da “cultura complexa e complacente”.
Mas, ahá, não para por aí. A publicação vai em busca da “explicação histórica” para a recusa ao papel mais relevante que o Brasil reivindica nos assuntos internacionais. Lembra o pouco espaço de negociação pós-Segunda Guerra, mesmo com o fato do Brasil ter sido o único representante “latino” (é assim que os gringos se referem a todos de sua fronteira para baixo) no conflito. Tal desequilíbrio só teria sido sanado por FHC quando “parou a inflação, abriu-se ao comércio exterior e normalizou as esfarrapadas relações com a comunidade financeira mundial” (!!!). Neste gigantesco salto histórico só esqueceram de registrar que, no meio do caminho, houve uma ditadura militar, que não teve nada de “branda”, e com apoio explícito dos próprios Estados Unidos. De qualquer forma, os milicos tinham uma visão “protecionista nacional” sui generis e perfeitamente integrada ao capital multinacional. Esqueceram também que o processo de redemocratização brasileiro envolveu o escancaramento dos portos no então governo Collor – triste memória – e que a estabilidade econômica iniciou ainda no governo Itamar.
Atribui ainda à FHC: “o começo da campanha pelo assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, o impulso inicial pelo Mercosul e o esforço por uma maior integração com as nações sob a bandeira do livre comércio” (será que eles estão falando da finada “ALCA”?). Adiante repisa a cantinela de que Lula “surpreendeu investidores estrangeiros e locais” ao aprofundar cada vez mais as políticas oriundas de FHC, inclusive “para frustração de seus próprios militantes aliados do Partido dos Trabalhadores”. Em suma, Lula foi definido como um “FHC com anabolizantes”. Ou seja, a par de toda sua tônica “social”, o governo Lula seria um mero “continuador rendido” do governo anterior. (É o Partido da Imprensa Golpista (PIG) fazendo escola).
Continuando com a caracterização da política internacional brasileira, a revista cita a “duplicação do número de departamentos do Ministério das Relações Exteriores e o itinerário de fôlego com visitas a 45 países, dedicando o equivalente a um mês por semestre desde 2007”, para assim referir-se ao apelido “Aero-Lula” adotado pela “imprensa local”. Diz que o propósito explícito dessas iniciativas é o de fortalecer relações com outros “países em desenvolvimento”.
Reconhece o mérito de Lula em forçar a redução de barreiras alfandegárias das nações mais ricas. Cita como exemplos as vitórias do Brasil na OMC em 2004, no caso do subsídio ao algodão estadosunidense e quanto ao protecionismo à beterraba na Europa. Aplaude a aposta do governo brasileiro em derrubar suas próprias barreiras protecionistas, para, em tese, “favorecer o livre comércio”, o que o deixou alinhado à posição dos EUA em Doha. Lembra, inclusive, o elogio feito ao Brasil pelo Banco Mundial à resistência brasileira em subir suas fronteiras, em meio ao cenário de crescente fechamento protecionista dos vários países.
Enfim, Lula é elogiado quando as políticas do governo sob seu comando parecem corresponder aos interesses dos EUA. Bem, depois dos fracassados experimentos dos receituários neoliberais, seria este um caminho producente?
O texto segue conjecturando que, pelo menos uma parte desses esforços do desabrochar do Brasil envolve uma estratégia não revelada de equiparar-se à influência dos EUA na região. Busca também dissipar expectativas de que Brasília jogaria um papel de aproximação com Washington. E cobra posição do Brasil, pois, enquanto os EUA seguem incensando seu importante parceiro global (o Brasil), “Brasília silencia quando Chávez ameaça empresas estrangeiras, intimida a oposição e macula o judiciário e o Congresso” diz a revista. Expressa assim desaprovação à “hermética” defesa de lula do “companheiro” (assim mesmo, publicado no original em português) Chávez: “ninguém pode alegar que não existe democracia na Venezuela” [reproduzindo declaração da entrevista à CNN]. Lembra que o Brasil usou o “lugar-comum” das regras de soberania para condenar firmemente a Colômbia, tida como maior aliada dos EUA na região, por causa do ataque ao acampamento guerrilheiro na selva equatoriana no ano passado e também que o Brasil costuma se abster nas votações das resoluções da ONU condenando as violações de direitos humanos em Cuba.
Ao mesmo tempo em que a Newsweek percebe como “contraditório” o não alinhamento automático da política externa brasileira com as posições que defende, diz que o Brasil controla um mercado cativo aos seus produtos na região: realizando uma espécie de “cooptação pelo comércio”. Isso seria resultado das “imensas reservas de recursos naturais, incluindo petróleo e gás, metais, soja e carne”. Assim é um dos principais fornecedores dos mercados da Ásia e mantém superávits comerciais com todos os países da América Latina (US$ 1 bilhão só com a Venezuela), inclusive pelo comércio de bens com valor agregado. Em suma, é mais uma incansável reedição da análise simplificadora pela ótica dos interesses puramente comerciais e econômicos que hipnotizam os EUA.
Cita como exemplos duas “grandiosas iniciativas para cercear Chávez”: um banco regional de desenvolvimento (“Banco del Sur”) e a refinaria de petróleo binacional, na qual silenciosamente não pretende investir um tostão. Diz que lula criticou Chávez por seus gastos com armamentos, enquanto falta leite para acompanhar o café nos hotéis, retratando a fraqueza da economia venezuelana e a dependência de bens de consumo brasileiros. Informa que o Congresso brasileiro deve aprovar em breve o ingresso da Venezuela no Mercosul, “não como um endosso aos desígnios imperiais de Chávez, mas como forma de sua contenção pelas obrigações dos tratados do bloco comercial, tais como respeito à democracia e ao direito de propriedade” (!!!).
A reportagem conclui dizendo que isso pode ser uma política arriscada, mas que as apostas estão com o Brasil. “Sem um manual definido para vir a ser uma potência global, o Brasil de Lula parece estar escrevendo seu próprio roteiro”.
Até que ponto há uma certa “teoria da conspiração” nessas análises? Até que ponto a sobrevalorização da Venezuela como contraponto ao Brasil não está comprometendo a objetividade? E até que ponto uma leitura equivocada da América Latina e do Brasil, elevado a um patamar de protagonista superior, não está novamente embaçando a política externa dos EUA para a região e para o mundo?
É evidente que a economia do Brasil, assim como as de outros países desempenham papéis crescentes no mundo da globalização dos capitais. É claro também que, na medida em que se dá a financeirização de todas as dimensões da produção, os fatores econômicos jogam um papel cada vez maior nos destinos planetários. Neste sentido se verifica uma certa ansiedade ianque em formar visões acerca de potenciais até então não apropriadamente explorados. O 11 de setembro deixou suas feridas e forçou lançar um olhar para fora do seu estrito “way of life”. E andam tateando um rumo diante da crise global, que extrapola e recai sobre inúmeras dimensões da existência humana: falta de alimentos, mudanças climáticas, conflitos étnicos separatistas, etc.
O problema, no entanto, é querer pautar essa análise ainda nos referenciais da guerra fria ou no Consenso de Washington. É exatamente por romper com uma concepção paradigmática engessada que a política externa brasileira tem avançado afirmativamente em questões como: soberania, reciprocidade, eqüidade social, segurança alimentar, etc. É sim uma política vacilante em alguns aspectos: quanto à questão da sustentabilidade, por exemplo. A força da política econômica brasileira reside num apetite expansionista voraz a qualquer custo, sem a devida atenção ao modelo de desenvolvimento e suas conseqüências. Mesmo presa ainda à uma concepção esgotada, do ponto de vista da lógica estrutural da produção e do consumo, entretanto, ainda consegue ser mais eficiente pelos meandros da nova ordem mundial, nas disputas intercapitalistas, do que a combalida liderança estadosunidense.
Enquanto isso, os EUA assistem seu próprio declínio a um passo atrás, porque atrelados ao causuísmo das circunstâncias que melhor lhes beneficiem. Não é, portanto, definitivamente, uma questão de sorte ou destino, como insinua a Newsweek.
Conclui-se que sua abordagem anunciada no cabeçalho (“entre sedutor e arredio, legal para América e próximo de Obama, Lula está construindo um gigante regional único”) não é promover uma reflexão honesta dos EUA sobre si mesmos e sobre seus desafios no ordenamento externo de agora em diante, e sim atribuir a desenvoltura do Brasil de lula à segurança permissiva que, no fundo, devemos a eles… Fala sério…
Rafael Tomyama é Secretário Estadual de Meio Ambiente e Desenvolvimento do PT Ceará
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