Onde você guarda o seu racismo?

28/11/2005 Onde você guarda o seu racismo?

Nossa história, marcada por 388 anos de escravidão, nos mostra que grande parcela da população ainda não conseguiu superar o sentimento de rejeição aos negros.

Se não sou negro por raça, posso ser negro por opção política. Mesmo não sendo negro, posso assumir a causa de libertação dos negros, defender o direito de suas lutas, reforçar, como puder, sua organização e sentir-me aliado na construção de um tipo de sociedade que torne cada vez mais impossível a discriminação racial e a opressão social e que veja como riqueza a diferença e a acolha como complementação. (Leonardo Boff, A Voz do Arco-íris).

Durante muito tempo, aceitei a idéia de que no Brasil não existia preconceito racial, mas somente preconceito de classe. O discurso sedutor faz confusão do ideal com o real: “vivemos numa democracia racial”; “somos um país mestiço”; “aqui não é os EUA e nem a África do Sul”; “todos são iguais”; “se tem dinheiro não importa a cor da pele”. Assim, o problema seria não a cor da pele, mas uma questão de riqueza ou pobreza.

Essa falácia nunca conseguiu encobrir a realidade. Nossa história, marcada por 388 anos de escravidão, nos mostra que grande parcela da população ainda não conseguiu superar o sentimento de rejeição aos negros (pretos e pardos) porque esses têm a cor da pele diferente do referencial de beleza predominante na sociedade (padrão europeu). Alguma dúvida? Assista a TV e veja os comerciais. Se aqui já não há o racismo institucionalizado – escravidão – existem desigualdades que não se explicam apenas pela falta de riqueza e renda, pois causadas pela diferença da cor da pele ou da etnia. Olhemos ao nosso redor: quantos casais são brancos/negros e vice-versa? Quantos ministros do Judiciário, generais, presidentes, grandes empresários, médicos, engenheiros e advogados são negros? Quantos negros têm renda acima de 10 salários mínimos? Quantos concluíram curso superior de graduação ou pós-graduação?

Essa perversa realidade jamais escondeu o nosso obscuro “preconceito de ter preconceito” (Florestan Fernandes). As pesquisas jogam por terra o discurso da igualdade racial. Em 1995, pesquisa do DATAFOLHA constatou que 89% dos entrevistados disseram que no Brasil havia preconceito de cor em relação aos negros e, paradoxalmente, 88% dos mesmos entrevistados afirmaram que não tinham preconceito em relação aos negros. Em 2003, pesquisa da Fundação Perseu Abramo, colheu que 91% dos entrevistados reconheciam que existia preconceito de cor em desfavor dos negros, porém 96% negaram que eram preconceituosos em relação aos negros (www.fpa.org.br). Como é difícil assumir onde escondemos nosso preconceito de cor!

Pensando nisso, o grupo “Diálogos contra o Racismo”, formado por 40 organizações que não fazem parte exclusivamente do movimento negro, resolveu lançar a campanha nacional Onde você guarda o seu racismo?, “direcionada para a população branca e que objetiva provocar uma reflexão individual e, principalmente, conscientizar a população de que a luta contra o preconceito racial é responsabilidade de todos.” Se, como constatam as pesquisas, o Brasil é um país racista sem racistas, precisamos, como orienta Boff, mesmo que não sejamos negros – o que não é o meu caso – assumir a luta contra qualquer forma de discriminação e preconceito raciais, descobrir onde guardamos nosso racismo, enfrentá-lo e jogá-lo fora. A mudança começa por você.

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