Entrevista de Joaquim Cartaxo a revista FALE

24/05/2006 Entrevista  de Joaquim Cartaxo a revista FALE

Centro dos problemas sociais

Para o arquiteto e mestre em planejamento urbano pela Universidade de São Paulo, Joaquim Cartaxo, o processo de saída da população de alto poder aquisitivo do Centro para área leste da cidade, é responsável pelo estado de “deterioração” e “quase ruína” do bairro, e não as camadas populares que se instalaram na região. Segundo Cartaxo, o poder público precisa compreender isto. “É o Centro da maioria da população”, afirma. O arquiteto conclui ainda que Fortaleza não tem, desde o final da década de 1990, um sistema de planejamento e controle urbano capaz de equacionar os problemas da região e da cidade.

Fale! Os problemas estruturais do Centro têm solução?

Joaquim Cartaxo. O Centro tradicional é o centro principal da cidade de Fortaleza. Possui o valor simbólico e cultural de ser o lugar onde a cidade surgiu e a partir do qual se expandiu. É o maior centro financeiro do Ceará, pois concentra, em termos absolutos, a maior parte das agências bancárias e similares do Estado. Concentra, ainda, a maior parte das atividades e dos empregos do setor terciário da cidade. Além disso, é o bairro com as melhores condições de infra-estrutura urbana e o lugar que mais atrai usuários do sistema de transporte de Fortaleza. Um bairro com tais características possui que tipo de problema? Grosso modo, são citadas questões relativas à conservação urbana da região, como deficiência na limpeza pública ou depredação do mobiliário urbano, falta de estacionamento e de segurança. Essas são questões que o poder público pode equacionar, à medida que o Centro seja definido como prioridade nas ações governamentais.

Fale! E os problemas sociais?

Joaquim Cartaxo. Do ponto de vista social, nas décadas de 1980 e 1990, houve uma transformação no Centro de Fortaleza marcada pela alteração do perfil socioeconômico de seus freqüentadores, que passaram a ser majoritariamente pessoas pertencentes às classes de poder aquisitivo C e D. Portanto, pessoas com baixa capacidade de compra de bens e serviços. Essa transformação é uma regra nas metrópoles brasileiras, causada pelo abandono das camadas de alto poder aquisitivo do Centro e concentração das mesmas em determinada região da cidade — no caso de Fortaleza, a região leste a partir da Aldeota. Consolidada essa região, inicia-se o processo de atração das atividades localizadas no Centro e que atendem aos interesses e demandas dessas camadas. Metaforicamente, é como se as camadas de alta renda, a partir de determinado momento, retirassem a parte do Centro que lhes “pertence” para perto delas. Diante desse abandono, as camadas populares ocupam o Centro. Essa ocupação popular é denominada de “deterioração” do Centro com o objetivo de buscar ocultar a responsabilidade das camadas altas pelo estado de quase ruína em que deixam o Centro ao abandoná-lo. Assim posta a questão, considero que a melhoria efetiva das condições sócio-espaciais do Centro dependerá da compreensão do poder público, da sociedade e do setor privado de que o Centro de Fortaleza, na atualidade, é o centro da maioria da população, o centro que atende predominantemente os interesses e demandas das camadas populares.

Fale! O que pode ser feito para habitar novamente o Centro?

Joaquim Cartaxo. Sou descrente em relação a isso. O preço para se transformar um edifício originalmente construído em um edifício residencial é muito alto. Na relação custo-benefício, há propostas mais factíveis para diversificar as atividades no Centro como desenvolver uma política de atração de atividades educacionais e governamentais, as quais possuem uma baixa capacidade de estruturar áreas de centralidade, mas tem uma alta capacidade de fortalecer áreas centrais. Quanto à habitação, defendo um programa de renovação urbana que adense com uso misto — moradia e atividades — as áreas do bairro Centro que circundam a área onde se concentram as atividades de comércio e serviço.

Fale! Mesmo com um comércio forte, porque o Centro não se
desenvolve?

Joaquim Cartaxo. O Centro é o local de maior dinamismo econômico da cidade É, por exemplo, o maior arrecadador de Imposto sobre Serviço — ISS — da cidade. Economicamente, polariza a cidade de Fortaleza como um todo e sua região metropolitana, bem como os estados do Ceará, Piauí e Maranhão.

Fale! O fim da estrutura urbana mononuclear — com um só centro — parece que tem sido um caminho “natural” em muitas capitais brasileiras. O surgimento de sub-centros, como Aldeota e Montese, ou centros de bairro, não deve ser incentivado?

Joaquim Cartaxo. O crescimento demográfico e o aumento da capacidade de deslocamento no território urbano, por meio dos veículos automotores, contribuíram para a expansão urbana para todos os lados e para o surgimento de novas áreas de centralidade — sub-centros, shopping centers —, que concentram atividades socioeconômicas para atender partes ou setores da cidade. Esse modelo de crescimento urbano que espalha população e atividades é extremamente dispendioso para a sociedade ao provocar o aumento da área de atendimento dos serviços urbanos — água, esgoto, transporte, coleta de lixo. Defendo um modelo de cidade mais concentrado, mais denso que diminua a dimensão das redes de serviço e a taxa de transformação de área rural em área urbana. Portanto, um modelo ecologicamente mais correto, na minha visão.

Fale! A situação atual do Centro — de abandono e degradação — é conseqüência de um crescimento urbano sem planejamento. Se Fortaleza já tivesse um plano diretor consolidado, no início da expansão urbana da cidade, a situação atual não poderia ser evitada?

Joaquim Cartaxo. Fortaleza é uma cidade que possui plano diretor desde o século XIX. No entanto, o plano é apenas um instrumento de controle da expansão urbana. Caso não exista uma estrutura política e técnica para operá-lo, não haverá o controle. A pergunta a ser formulada é outra, na minha opinião: há um sistema de planejamento e de controle urbano de Fortaleza capaz equacionar os problemas do Centro e da cidade? Não, não há. Já houve, porém, foi desmantelado no final da década de 1990

Fonte: www.revistafale.com.br

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