A arte de estereotipar

24/06/2009 A arte de estereotipar

Agora quer que na previsível reeleição de Cid Gomes, o candidato a vice seja o desconhecido e inexpressivo Valdemir Catanho, o assessor ‘Lombarde’ da Prefeita Luizianne”.
A conhecida e destacada jornalista Regina Marshall não prestou atenção que o Waldemir que ela se refere se escreve com “W” e não “V”. Mas tudo bem, os expressivos também cometem erros.
Esse Waldemir Catanho inexpressivo e desconhecido foi operário têxtil, diretor do sindicato dos têxteis do Ceará, estudante de jornalismo, assessor parlamentar e hoje um dos responsáveis pela administração na capital do Estado; ainda assim para o Jornal Diário do Nordeste esse dirigente  não passa de um “inexpressivo assessor”. Por que? Possivelmente porque é negro e já trabalhou como operário, um mero produtor de riquezas alheias. Desgraçadamente na cabeça suja dos senhores capitalistas e seus auxiliares de plantão a classe trabalhadora não tem nenhum valor; seu único papel é o de produzir mercadorias e nada mais.   
Eu tenho a mais absoluta certeza que se fosse esse Waldemir Catanho, um herdeiro de capitalista e, em vez de negro fosse branco de olhos azuis, os jornais estariam dizendo diferente, talvez assim: “para nós cearenses é motivo de orgulho que o jovem e talentoso Catanho esteja sendo cogitado para ser o vice governador do Ceará. Com certeza será uma excelente escolha, porque apesar de jovem é muito bem preparado e, além disso, fez doutorado nos Estados Unidos”.
Balzac relata esse fenômeno através de seu opulento personagem, Taillifer, quando brindou a um jovem que acabara de herdar uma imensa fortuna. Disse ele: “senhores, bebamos ao poder do ouro! O senhor Valentim, seis vezes milionário, atualmente acaba de subir ao trono. É rei, pode tudo, está por cima de tudo, como sucede a todos os ricos. Conseqüentemente, a igualdade diante da lei, consignada pela Constituição, será um mito para ele”.
Jorge Amado, em Capitães de Areia também critica a imprensa. O brilhante escritor analisa o comportamento do “Jornal da Tarde,” vejamos através de dois exemplos apenas:

CARTA DO PADRE JOSÉ PEDRO Á REDAÇÃO DO “JORNAL DA TARDE”. Sr. Redator do “Jornal da Tarde”Saudações em Cristo.     Tendo lido, no vosso conceituado jornal, a carta de Maria Ricardina que apelava para mim como pessoa que podia esclarecer o que é a vida das crianças recolhidas ao reformatório de menores, sou obrigado a sair da obscuridade em que vivo para vir vos dizer que infelizmente Maria Ricardina tem razão. As crianças no aludido reformatório são tratadas como feras, essa é a verdade. Esqueceram a lição do suave mestre, sr. Redator, e em vez de conquistarem as crianças com bons tratos, fazem-nas mais revoltadas ainda com espancamentos seguidos e castigos físicos verdadeiramente desumanos. Eu tenho ido lá levar às crianças o consolo da religião e as encontro pouco dispostas a aceitá-lo devido naturalmente ao ódio que estão acumulando naqueles jovens corações tão digno de piedade. O que tenho visto, sr. Redator daria um volume.

Muito grato pela atenção.
Padre José Pedro(Carta publicada na  terceira página do “Jornal da Tarde”, sob o título “Será Verdade?” e  sem comentários).

CARTA DO DIRETOR DO REFORMATÓRIO Á REDAÇÃO DO “JORNAL DA TARDE”

Exmo.sr. Diretor do “Jornal da Tarde”
Saudações.

  “…Porém, sr. Diretor fazendo minhas as palavras da costureira que escreveu a esse jornal, sou eu quem vem vos pedir que envieis um redator ao Reformatório. Disso faço questão. Assim podereis, e o público também, ter ciência exata e fé verdadeira sobre a maneira como são tratados os meninos que se regeneram no Reformatório Baiano para Menores Delinqüentes e Abandonados. Espero o vosso redator na segunda-feira. E não digo que ele venha no dia que quiser é que estas visitas devem ser feitas nos dias permitidos pelo regulamento e é meu costume nunca me afastar do regulamento. Este é o motivo único por que convido o vosso redator para segunda-feira. Pelo que vos fico imensamente grato, como pela publicação desta. Assim ficará confundido o falso vigário de Cristo.
   
    Criado agradecido e admirador atento.
    Diretor do Reformatório.
(Título da reportagem publicado na segunda edição de terça-feira do “Jornal da Tarde”, ocupando toda a primeira página, sobre o Reformatório Baiano, com diversos clichês do prédio e um do Diretor com um comentário)

UM ESTABELECIMENTO MODELAR ONDE REINAM A PAZ E O TRABALHO – UM DIRETOR QUE É UM AMIGO – ÓTIMA COMIDA – CRIANÇAS QUE TRABALHAM E SE DIVERTEM – CRIANÇAS LADRONAS EM CAMINHO DA REGENERAÇÃO – ACUSAÇÕES IMPROCEDANTES – SÓ UM INCORRIGIVEL RECLAMA – O REFORMATÓRIO BAIANO É UMA GRANDE FAMILIA – ONDE DEVIAM ESTAR OS CAPITÃES DE AREIA”.

    São por esses e outros milhões de exemplos que em 1883, John Swinton, redator chefe do New York Times, disse: “nuestra muy cacareada libertad de prensa significa libertad para los ricos de poseer e imponer a la opinión pública el mundo tal como ellos los ven, con ojos de gran capital. Ninguna ley priva a la prensa de los Estados Unidos de libertad, no hay necesidad de ello… las noticias recebidas por nosotros son mutiladas, tergiversadas y desmenuzadas a favor de los ricos, en contra de los pobres.
    Somos armas y vasallos de los ricos, que actuan entre los bastidores… Nuestro talento, nuestras posibilidades y nuestra vida, todo es propriedad de otras personas. Somos prostitutas intelectuales”.
    Infelizmente a imprensa é uma instituição burguesa e a burguesia é preconceituosa. O Lula já fora chamado de sapo barbudo e comedor de criancinhas, chegaram ao ponto de fazer uma piada nojenta com D. Marisa, pela qual ela teria tomado um tremendo susto ao vê o Palácio da Alvorada. “Meu Deus! Como é que eu vou conseguir limpar tantas janelas?”
Ao Fidel Castro eles chamam de ditador sanguinário, Dom Aluisio era chamado de vermelho, Padre José Pedro de falso vigário de Cristo, Zombi de negro arruaceiro e assim acontece com qualquer um que se disponha a contrariar mesmo que minimamente aos interesses dos ricos e poderosos. Portanto essa imprensa não é um exemplo para nós e por- conseguinte seus estereótipos devem ser olvidados.

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