Um problema de saúde pública

23/03/2006 Um problema de saúde pública

Mas em virtude das manifestações do dia internacional da mulher, vale a pena relembrar para refletir. A pesquisa revelava que a violência doméstica exercida pelo companheiro era a que mais atingia a mulher, sendo maior que a cometida por estranhos ou simples conhecidos. Esse tipo de violência estaria disseminado e traria graves conseqüências à saúde da mulher. Bom lembrar que foram entrevistadas milhares de mulheres no Brasil, Peru, Bangladesh, Etiópia, Japão, Namíbia, Samoa, Sérvia e Montenegro, Tailândia e na República Unida da Tanzânia.

Segundo o estudo da OMS, entre 25% e 50% das mulheres agredidas pelo parceiro afirmaram terem sofrido lesões físicas. Tapas, socos, chutes, empurrões, estrangulamento, ameaças com armas brancas ou de fogo estão entre as formas mais comuns desse tipo de violência. No Brasil, a pesquisa foi realizada na cidade de São Paulo e na Zona da Mata pernambucana, perfazendo um total de 2.645 mulheres entrevistadas.

A partir desse universo, a pesquisa constatou que sintomas como dores, desconfortos severos, problemas de concentração e tonturas foram descritos por mulheres que já sofreram violência física e/ou sexual por companheiros e ex-companheiros. Sem falar das lesões diretamente decorrentes da violência como cortes, perfurações, mordidas, contusões, esfolamentos, fraturas, dentes quebrados e outras relatadas por 40% das paulistanas e 37% das pernambucanas. Entre as mulheres das duas regiões constatou-se que são duas a três vezes maiores as intenções e tentativas de cometer suicídio, se compararmos a mesma taxa entre mulheres que não sofrem violência.

Entre as que se disseram vítimas de violências físicas, 40% das paulistanas e 37% das pernambucanas afirmaram ter sofrido ferimentos e uma em cada três foi hospitalizada em conseqüência das agressões. O uso diário de álcool também é mais freqüente entre as agredidas. Outro índice alarmante diz respeito ao número de abortos. Entre as paulistanas que sofreram violência física ou sexual, 28% já fizeram algum aborto, enquanto entre as mulheres sem relato de violência esse índice é de 9%.

O simples relato e leitura comparativa dos fatos já deveria nos deixar em estado de alerta. Uma pesquisa complementar mensurando as repercussões em termos de custos para o sistema de saúde, além de perdas para o setor produtivo, poderia dar uma dimensão mais completa dessa realidade que traz prejuízo às vítimas e à sociedade. O que podemos dizer é que a violência doméstica sofrida, diariamente, por mulheres, em todo o País, representa um grave problema de saúde pública que deve ser combatido desde já pelos governos.

No Ceará, onde não podemos confiar sequer nos registros de ocorrência realizados pelas delegacias comuns, urge a criação de uma lei que obrigue os serviços de saúde estadual a estarem atentos ao diagnóstico e registro desse tipo de violência, a fim de que políticas públicas possam ser construídas em sintonia com a realidade. Sintomas aparentemente simples podem esconder realidades de violência e opressão e, nesse caso, o mal estar e a busca de soluções devem ser compartilhados por todos nós.

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