Ícones e velhos nomes, de novo olhar

06/08/2008 Ícones e velhos nomes, de novo olhar

Algumas propostas chegam a ser hilariantes se não fossem trágicas. Sinceramente, a capital do Ceará não merece. Exige-se um mínimo de pudor no trato do passado. Confusão surge no que diz respeito ao nosso primeiro magnífico reitor Martins Filho. Ponha a mão na consciência e analise: Martins Filho ia querer tirar o nome da Avenida da Universidade para colocar o dele no lugar! Ele queria sim ser o hipônimo da Av. 13 de Maio. Isso sim. Mas a fé é que não deixa ver. É bom lembrar o antigo nome da Av. da Universidade, na boca do povo, era Avenida da Morte, embora fosse Visconde de Cauípe. É só para lembrar, só e basta. Deixa como está. Um amigo resolve a questão e acaba a injustiça da omissão do nome do magnífico reitor na antropologia da geografia urbana de Fortaleza: Campus Universitário Martins Filho I. Benfica, Martins Filho II. Porangabussu. E Martins Filho III Pici. Simples assim. Satisfaz à sua grandeza e ele merece.

Voltando às ruas, nada impede, muito pelo contrário, que a consciência cidadã dos donos do Centro se ilumine resgatando os antigos nomes das ruas pintados à mão em azulejos com letras góticas continentais ou fundidos em ferro. A Castro e Silva era Rua das Flores, pois liga o cemitério à Catedral, tinha mais: Formosa, da Aurora, Bela, do Sol, das Trincheiras, da Saudade, das Amélias, da Alegria, do Fogo, do Lago, da Praia, da Botija da Boa Hora, das Almas, da Carolina, do Beco dos Pocinhos, do Segundo, da Apertada Hora, do Alto do Bode, da Cachorra Magra, das Areias, da Palma, do Couro, da Gloria, da Bica, do Açude … Hoje todas se chamam Dr. Fulano de Tal. É para os proprietários acrescentarem nas paredes os antigos e singulares nomes. Não precisa alterar CEP, mapa, catálogo, telefônico. É só incluir um adorno ícone da história na paisagem da urbe. É em suma só realizar a vontade de pintar um azulejo.

E tem mais, abram bem os olhos àqueles comerciantes que têm a consciência da dimensão de uma moeda: esse gesto pode trazer lucro ao diminuir mais a já reduzida taxa do IPTU daqueles que restaurarem as fachadas originais dos prédios históricos do centro, hoje revestidos de horrendos tapumes coloridos.

Eu queria mesmo Fortaleza com uma Rua: do Amor, da Morena, do Mel, da Noite, da Luz, da Lua, do Sereno, da Madrugada. E uma Avenida da Liberdade no Poço da Draga onde Chico da Matilde, o Dragão do Mar, barrou a escravidão no porto desta esquina do mundo. Fazendo uma greve vitoriosa pela liberdade do homem.

Querem no frenesi histérico desse tempo sem razão mudar também o nome da Avenida Beira Mar para Av. Dom Aloísio Lorscheider. Digam-me pelo amor de Deus, afinal de contas, quem já viu o nosso amado cardeal comprando bugigangas, artesanato, guloseimas, na feirinha da Beira Mar? Ou fazendo Cooper na alvorada da orla? Ou simplesmente deliciando a gula almoçando ou jantando peixadas. Quiçá, flanando serelepe entre as fagueiras garotas de Iracema na Volta da Jurema ao pôr ou ao nascer do sol? Quem o viu em qualquer lua mergulhando de tainha na pequena praia do Peixe ou no Ideal? Nunca ninguém. Nem em sonho.

É, pura heresia? Não precisa tititi, mas imagina a manchete dos jornais: ” Lorscheider é palco da parada gay”. Vale lembrar que a Avenida Beira Mar foi o penúltimo nome trocado. Era Presidente Kennedy, ou melhor, digo, foi por um lapso de tempo, o nome do presidente americano assassinado que nunca pisou nas areias deste chão sagrado. Voltando a ser denominada Avenida Beira Mar. Ela já foi também Av. dos Jangadeiros. E bem antes dela quando havia casas do lado do mar chamava se Rua Getúlio Vargas. E é bom deixar como está. Que eu saiba o Gegê não tinha afeição à beira do mar. Ele gostava dos pampas. O amigo propõe solução: – Por que não por o nome de Dom Aloísio em um conjunto habitacional! E digo mais feito a partir das ocupações que ele tanto convivia. Já, temos Conjunto Che Guevara, Rosa de Luxemburgo, temos até Bairro Dom Lustosa, por que não Dom Aloísio Lorscheider? O cardeal merece até uma cidade.

A parte que me toca nessa história de rua é do intimismo no cotidiano mesmo. Morei muitos anos no bairro das Cajazeiras, Rua Francisca Nogueira Ramos, Conjunto Parque Primavera. Com as mudanças dos carteiros, percebi caos na minha correspondência que a rua era na verdade três: uma Francisca nas Cajazeiras e dois Franciscos, uma na Cidade dos Funcionários e outra no Mata Galinha. O que me levou na busca de restituir e resgatar cartas, a fazer amizades indevidas e desafetos desnecessários. Só esse fato era mais que suficiente para mudar de rua. Para onde? Com o objetivo a revitalização fui morar no Centro com a esperança pra lá de vermelha, já ficando roxa querendo ver e sede do Poder Executivo de Fortaleza no histórico Palácio do Bispo (oficialmente Palácio João Brigido) nos jardins de Burle Marx, às margens do empedrado, emparedado e cercado de largas barras de ferro, o ainda belo e forte Pajeú.

Morando atras do mercado na travessa Baturité vizinhança do memorialista Christiano Câmara, descobri a travessa se chama para os íntimos de rua da Escadinha. A Baturité continuará Baturité assim como ainda resistem alguns nomes das ruas do Centro em homenagem a municípios do Estado, vide: Crato, Sobral, Itapajé, Crateús, Icó, Massapê, Russas, Morada Nova, Aracoiaba, Maranguape, Viçosa…

A rua Baturité tem uma escadinha separando seus dois quarteirões. Detalhe: na rua Rufino de Alencar, onde ela termina tem um muro enorme cheio de reclames e propagandas com letreiros de péssimo gosto. Esse muro, sim, precisa ser derrubado para anistiar o Riacho Pajeú, que se encontra emparedado no fim da rua São José, impedindo a visão de um lindo cartão-postal da cidade. Essa é a prova que destruir é também resgatar e construir o belo. A engenharia comportamental da geopolítica urbana da cidade de Fortaleza é tão esdrúxula que para você ver de lá o Pajeú tem que subir ao terceiro andar do Mercado Central!

Tem um nome de rua que tem de retroceder: na esquina do meio da Baturité depois do viaduto surge a Avenida Presidente Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, essa que o povo chama de Leste Oeste. Antes, ali se denominava de Rua Franco Rabelo e o povo dela ainda assim a chama. É rua curta, vai da Baturité à Dom Manoel. Entretanto, de profundo significado na história da cidade e do Estado, pois o Franco Rabelo com o povo derrubaram a oligarquia Acioly. Enquanto o marechal implantaria uma ditadura militar – “A Redentora de 31 de Março”. Na verdade, no dia da mentira “1º de abril de 64” derrubando governo democrático legitimamente eleito.

Apagando da história do Ceará referência ao secular épico “a queda do Acioly” que derrubou, numa guerra civil, com levante popular vitorioso, uma oligarquia. Só resiste o nome de rua Franco Rabelo na conta de luz da bodega do seu Luiz Soares, na esquina da antiga Senhor dos Passos, que com a chegada de uma delegacia virou beco do Inferno. Depois toda pintada de azul se transforma em Vila Azul. A Baturité começa na José Avelino, que deve ter suas longas, largas e claras pedras tombadas pelo patrimônio histórico.

Subindo pela ladeira das artes, na Baturité no meio da escadinha, existe um bibelô a lapidar, precisa de aformoseamento, batentes restaurados, iluminação, construção de corrimão, de bancos namoradeiras, cidreiras, roseiral… Lá é um “point” singular de visão dos seguintes ícones: as torres gêmeas do seminário da Prainha de dom Helder e Padre Cícero. O Cristo Redentor do Círculo Operário. As torres gêmeas da catedral, As brancas paredes do forte com seus negros canhões. O Mercado Central. O viaduto da Leste Oeste. O mezanino da Secretaria da Fazenda. Os armazéns da Rua Icó. A redoma de prata do planetário. E as sete pirâmides do Dragão do Mar.

Por lá deve escoar o fluxo turístico do Mercado Central a partir da demolição do muro debaixo do viaduto e a criação de passarela para acessar caminho à rua da Escadinha e ladeira das artes na rua Baturité para a José Avelino em direção ao Dragão do Mar.

Para aprimorar o resgate da auto-estima da consciência cidadã do Fortalezense é necessário que alguns ícones sejam restaurados como: o crucifixo quebrado e os dedos decepados do Cristo Redentor, na praça do Seminário da Prainha. A flauta e o braço desaparecidos do elfo sobre peixe da praça dos Leões. A face de São José destruída parece que à bala no teatro do Circulo Operário. O braço, o arco e a flecha quebrados do Cupido da ilha do amor da lagoa do Garrote no Parque da Liberdade, (na) ou Cidade da Criança.

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