Por que vetar alianças com o PSDB e o PFL
Aproximam-se a passos largos as eleições municipais de outubro e, pela primeira vez em muitos anos, o debate sobre a política de alianças municipais avança em todos os Estados sem uma diretriz clara por parte da direção nacional do PT.
Nem se diga que o 3º Congresso balizou nossa política de alianças. Não há nada mais vago que sua resolução sobre o tema: “As direções partidárias nacional e estaduais devem auxiliar as direções locais a preparar corretamente as campanhas às eleições de 2008, estar presentes na escolha de caminhos e da unidade, mobilizar os quadros experientes do partido nestas tarefas, especialmente nossos atuais governantes locais. Caberá à Direção Nacional definir as orientações e normas sobre alianças. Os bons resultados
em 2008 farão o Brasil avançar na revolução democrática que estamos construindo ao longo da história do PT e ajudarão a construir as bases de uma nova vitória do PT em 2010”.
Já em 2004, ano em que o PT construiu as bases para afundar na crise dita do “mensalão”, que teve seu ápice em 2005/06, a política de alianças estava baseada na falta absoluta de critérios para além do pragmatismo eleitoral local. Os partidos da base de apoio do governo federal eram todos parceiros possíveis, e alianças com o PSDB e o PFL eram passíveis de autorização, “caso a caso” analisadas pelas direções estadual e nacional.
Neste ano, o cenário macroeconômico e político indicam que o governo federal será um grande eleitor. A popularidade do presidente Lula e das políticas sociais, bem como os resultados do desenvolvimento econômico, da distribuição de renda e da geração de empregos, são favoráveis a um discurso nacional de apoio ao PT e aos aliados do governo federal.
Aí está um dos nós de nossa política de alianças. Já prendemos que o sucesso do governo federal não se reflete automaticamente no crescimento eleitoral do PT, nem este é visto pela população como o principal elemento do desempenho do governo federal. Pelo contrário, para muitos setores da opinião pública, estimulados pelos meios de comunicação e por partidos aliados, o PT é o problema que muitas vezes impede o governo de ir mais adiante…
Os problemas dessa coalizão conservadora com partidos que compõem a base de sustentação de sucessivos governos federais, além de introduzir o elemento da chantagem política permanente como método de relação destes partidos com o governo, geraram o isolamento político do PT e as dificuldades de uma política de alianças nacionais para 2008.
Por um lado, os setores de esquerda e centro-esquerda da coalizão – notadamente o chamado “bloquinho” puxado por PCdoB, PSB e PDT – se afastam eleitoralmente do PT, indicando que sua solidariedade com o governo Lula não implica seu alinhamento com o PT em 2008 e 2010. Na verdade, farão de 2008 um laboratório para verificar sua musculatura para os desafios de 2010 – eleição presidencial, aumento de bancadas, cláusula de barreira…
De outro lado, os partidos conservadores que nos restariam – PP, PR, PTB et caterva – são disputados pelos governadores/as, de cuja base de sustentação
igualmente participam, e definirão seus apoios “caso a caso” – por vezes municipalizando a discussão, por vezes ensaiando um “leilão” entre as esferas federal e estadual.
Nesse contexto, o PT precisa se preparar para testar sua força, disputar o legado positivo do governo, aproximar-se dos movimentos sociais para afirmar seu compromisso com transformações sociais ainda mais profundas para o país e para as cidades e restringir seu leque de aliados, lançando uma ofensiva programática junto aos partidos do campo democrático e popular neste momento de dificuldades de relações eleitorais. O lançamento da campanha nacional por reformas democráticas, envolvendo os diretórios e fundações do PT, PCdoB, PSB, PDT e PRB, recoloca a possibilidade de um embate político à esquerda no governo e na sociedade que pode servir de base para uma retomada de relações, inclusive eleitorais, a curto e médio prazos.
Por fim, assistir impunemente ao avanço de conversações entre diretórios locais do PT e do PSDB/PFL (desculpem, não consegui ainda assimilar o DEM, pois PFL expressa muito bem o que eles são), significa abrir mão de qualquer traço nacional na política de alianças deste ano.
PSDB e PFL são a ponta-de-lança da agenda neoliberal que quer voltar a dirigir o país. Seus governos em São Paulo e Minas Gerais, sem falar no Rio Grande do Sul e outros Estados menos decisivos na política nacional, são os espelhos para onde miram dirigir o país a partir de 2010.
São impiedosos na oposição, buscam a todo tempo solapar ao máximo as realizações do governo, atingir sua imagem e a do PT em particular. São nossos principais adversários eleitorais em 2010, e buscam um espaço de respiro nos Estados e municípios para construir sua força para a disputa presidencial. Em cada trincheira, o ódio de classe destilado por essa turma contra o PT e o Governo deveria ser o suficiente para que não alimentássemos expectativas de alianças desta natureza.
Mesmo assim, embalados por vezes no pragmatismo local, por vezes num elaborado discurso de coabitação à mineira entre nossos dois projetos, as alianças com o PSDB e o PFL vêm sendo discutidas sem travas em vários quadrantes do país.
Urge, pois, que aprovemos no próximo Diretório Nacional uma clara orientação aos municípios: alianças com o PSDB e o PFL estarão vetadas para 2008. Sem choro nem vela, nem análise “caso a caso”.
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