O Problema é o preconceito
É assustador ler as notícias veiculadas nos grandes meios de comunicação do Brasil ligados à elite conservadora. Qualquer estrangeiro que chegue ao Brasil e tenha acesso aos noticiários ficará impressionado com o quadro de corrupção “supostamente” instalado no País – é interessante porque, em geral, as denúncias são “supostamente” verdadeiras, embora nada se comprove.
Agora a mídia começa a dar destaque a um “suposto” movimento social que está a pedir o impeachment do Presidente Lula, em face da gravidade do “suposto” quadro de corrupção instalado. Essa mídia tão indignada com a “suposta” corrupção do Governo Lula é a mesma que há cerca de treze anos, não mostrava tal grau de indignação e não dava o devido destaque ao quadro de corrupção do Governo Collor – esse sim comprovado – a não ser quando a sociedade saiu às ruas. É também a mesma mídia que nunca se indignou e deu destaque à “suposta” corrupção do Governo Fernando Henrique, essa nunca investigada porque o governo não permitia a criação das CPIs.
O que está em curso no País não é um quadro de corrupção generalizado, mas sim o quadro histórico de embate entre as forças conservadoras reacionárias e as forças populares progressistas, associado a um forte preconceito social e se eu concordasse com a categoria classe social, corroboraria com os que dizem ser uma luta de classes.
Na verdade, é muito difícil para a parcela da sociedade de caráter reacionário aceitar um governante com as características do Presidente Lula. Eu me lembro da grande indignação que tomou conta de muitos setores da sociedade, há alguns anos atrás, quando o MST invadiu a Fazenda do então Presidente Fernando Henrique Cardoso. O que incomodou não foi propriamente a invasão, mas a imagem “daquela gente” na sala de visitas e no quarto do principal representante da burguesia naquele momento.
Da mesma forma, quando do episódio da boutique Daslu – o que indignou não foi a prisão, mas a invasão do templo de consumo da burguesia por “supostos” representantes do Governo Lula. Na verdade, apenas a Polícia Federal cumprindo seu papel constitucional de prender, por ordem judicial, entre outros, os sonegadores de impostos.
É isso que incomoda essa elite. Não é um problema da qualidade do governo, não é um problema de corrupção. É ver um metalúrgico e sua senhora morando no Palácio, tendo acesso às benesses próprias do cargo que foi criado para outros e não para um lula qualquer. Como Lula ousa se apresentar agora com ternos bem cortados? Dona Marisa freqüentar um estilista – isso não é para ela. Lula viaja pelo exterior. É recebido por presidentes e primeiros-ministros. São circunstâncias do cargo. Mas para essa elite reacionária esse tipo de circunstância não pode ser permitida a um sindicalista barbado, que não tem sequer curso superior. Que fala errado, que gosta de cachaça, de jogar pelada, como a maioria da população.
Essa questão da linguagem me lembra um episódio da campanha de 1998, quando o então candidato a vice de Lula, Aloísio Mercadante, veio fazer um comício em Fortaleza e fez um discurso muito elaborado. No dia seguinte ao comício eu estava em outra atividade, em um bairro da periferia quando ouvi o seguinte depoimento:
– Rapaz, viu o comício ontem? Bonita a fala daquele vice do Lula. Eu não entendi nada. Mas era bonito o jeito que ele falava.
É assim o nosso povo, sem estudos, sem formação. Mas acha bonito palavras que muitas vezes nem entende.
Lula não fala empolado, mas fala o certo. E fala de uma forma que o povo entende. É através das analogias que tanto incomodam alguns setores, que o povão entende o que ele diz. Mas o principal, é que mesmo falando errado, governa de forma correta. Conhece os problemas desse País mais que qualquer pós-doutor da Sorbone. Tem propostas concretas para enfrentar e superar esses problemas e está colocando em prática. E esse outro é aspecto que incomoda muito as elites. Foi preciso vir um legítimo representante do povão pra fazer o Brasil dar certo. Isso é difícil de engolir. Não é possível permitir que Lula entre para a história como o melhor presidente que esse País já teve. Por isso, é preciso desmoralizar o Lula, a qualquer preço, ainda que haja convulsão social, que a economia se descontrole, não importa. Até porque, o único compromisso dessa elite é com ela mesma e, como sempre aconteceu no mundo, as vítimas dos desmandos da elite são sempre os pobres e os remediados.
Não tenho dúvidas que vão fazer o impossível para tentar cassar o mandato do presidente legitimamente eleito. Mas também tenho certeza que vou às ruas para defender o governo do primeiro presidente que falou bonito a linguagem franca, direta e sincera das ruas. E tenho uma certeza ainda maior – seremos muitos.
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