Desenvolvimento regional: Nordeste vive ciclo de expansão inédito
Desde 2001, a economia nordestina vem crescendo a taxas superiores à média nacional. Enquanto a média da região foi de 4,2% nesse período, o país cresceu 2,3%. Se fosse um país isolado do resto do Brasil, o Nordeste hoje teria um crescimento semelhante ao da Irlanda.
Entre os motivos desta expansão estão a estabilidade da economia, o fluxo de empresas provocado pela guerra fiscal, o aumento real do salário mínimo, a inclusão bancária e a oferta de crédito a juros baixos promovidas pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, além dos programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, que tem mais da metade de seus beneficiados vivendo nesta região do país.
Desde 2002, o consumo dos nordestinos cresceu 143,5%. O resultado está acima da média do país para o período, de 126,3%, e do desempenho do Sudeste (120,9%), revela o estudo “Brasil em Foco”, que acaba de ser concluído pela consultoria Target Marketing e divulgado pelo jornal O Estado de S.Paulo.
Também em termos relativos, as famílias do Nordeste e do Norte ampliaram suas fatias no bolo do consumo nacional. O Nordeste respondia por 15,6% do consumo em 2002 e a região Norte por 4,2%. Até dezembro deste ano, a participação do Nordeste será de 16,9% e a do Norte, 5,5%, calcula o diretor da consultoria e responsável pelo estudo, Marcos Pazzini.
De cimento a perfumes, as famílias da região devem gastar só neste ano US$ 117,6 bilhões, um pouco mais que o Produto Interno Bruto (PIB) do Chile em 2006. São quase US$ 70 bilhões a mais em relação ao dinheiro que girou há cinco anos na região.
Tais números se explicam pelo aumento inédito da renda per capita, e a região, que concentra 52 milhões de habitantes, ou quase um terço da população brasileira, tornou-se o maior pólo de atração de empresas — especialmente as ligadas ao setor de consumo de massa. Estima-se que mais de 2.000 companhias de médio e grande porte tenham se estabelecido na região nos últimos cinco anos, provocando uma lufada de renovação no ambiente de negócios.
Segundo cálculos baseados em dados do Banco do Nordeste, os investimentos privados na região entre 2001 e 2006 decuplicaram, passando de R$ 300 milhões para mais de R$ 3 bilhões — o que gerou cerca de 1,2 milhão de novos empregos, entre diretos e indiretos. Corporações como Nestlé, Kraft, Perdigão, Unilever, Arcor e Whirlpool ampliaram substancialmente sua presença na região, seja pela construção de novas fábricas, seja pela ampliação das já existentes.
Bolsa-Família e aumento do mínimo
“É a primeira vez, desde o ciclo do açúcar, que a região passa por um processo de crescimento ancorado no setor privado”, disse Tânia Bacelar, economista da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e ex-secretária de Políticas de Desenvolvimento Regional do Ministério da Integração Nacional em entrevista à revista Exame.
Somente em 2006 e 2007, mais de R$ 10 bilhões devem ser repassados para os estados do Nordeste com os programas de transferência de renda, como o Bolsa-Família. “De uma hora para outra, essas pessoas foram inseridas no mercado de consumo”, afirma Johnny Wei, diretor da Nestlé para o Nordeste. A empresa acaba de inaugurar uma fábrica na cidade de Feira de Santana, a 100 quilômetros de Salvador, exclusivamente para abastecer o mercado regional. “É um número que não pode ser desprezado.”
Outros R$ 5 bilhões foram injetados na economia nordestina com o aumento real do salário mínimo da ordem de 20%, ocorrido nos últimos três anos. Quase metade da população economicamente ativa da região tem seus rendimentos atrelados ao mínimo — o maior índice do país. “O Nordeste recebeu muito dinheiro em pouquíssimo tempo. O impacto é imediato”, afirma Sérgio Vale, da consultoria MB Associados.
“A maioria da população do Nordeste não possuía nem conta bancária. Seu salário era corroído mês a mês”, afirma o economista Antonio Wilson Ferreira Menezes, da Universidade Federal da Bahia.
Além de todos esses fatores, há um outro que fez com que o motor da economia entrasse em combustão e criasse milhares de postos de trabalho: o turismo.
Grupos de vários países (em especial da Espanha e de Portugal) estão investindo pesadamente nos estados nordestinos. Segundo um levantamento feito pelo Anuário de Turismo EXAME, o Nordeste deve receber 74% dos investimentos no setor hoteleiro esperados para os próximos cinco anos no Brasil. No total, serão quase R$ 5 bilhões. Só na Bahia, que concentra 29% de todos os investimentos previstos para o país, serão gerados cerca de 23 mil novos empregos. A construção civil na região passa por uma expansão sem precedentes. Boa parte dos empreendimentos voltados para o turismo prevê, além de hotéis, a construção e a venda de imóveis, um mercado voltado para o público europeu. “É uma tendência internacional que começa a ganhar fôlego no Nordeste”, diz o consultor José Ernesto Marino, da BSH International. “É a chamada segunda onda do turismo.”
Sertão
O atual ciclo de desenvolvimento não se restringe apenas às áreas próximas do litoral. Meta de 23 novos pólos de desenvolvimento do Nordeste está localizada no sertão, e quase todos tema exportação como foco principal.
Graças a investimentos na modernização do porto de Suape, essa produção, que movimenta R$ 80 bilhões por ano, pode ser escoada com mais facilidade. Centros produtores de calçados, têxteis, petroquímicos e de agronegócio — especialmente os de soja e frutas — vêm se beneficiando do aumento do comércio exterior. São lugares como Santa Maria da Boa Vista, a 640 quilômetros de Recife, que se desenvolvem a reboque da produção de uva no Vale do Rio São Francisco. A cidade, de 40 000 habitantes, tem hoje uma taxa de crescimento da ordem de 10%. Além de Boa Vista, há pelo menos outras 11 cidades localizadas no interior nordestino que vêm crescendo graças às exportações. No mesmo ritmo, avançam municípios como Balsas, no Maranhão, que tem crescido em média 21%, e Uruçuí, no Piauí, com taxas de 13%. Ambos têm suas economias baseadas no plantio de soja.
Com informações do jornal O Estado de S.Paulo e da revista Exame
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